Opinião

Um país acima das leis

José Goulão

A Israel tudo é permitido. Como se as nações do mundo, a começar pelas de maior peso militar e económico, sofressem de problemas de consciência por causa das atrocidades cometidas por Hitler e receassem o anátema de anti-semita que os mentores do regime sionista disparam em direcção a todos os que discordam das suas práticas, a maioria delas marginais.

Israel executa bombardeamentos contra território da Síria e o que acontece? Alguém convoca o Conselho de Segurança da ONU? Alguma administração, a começar pela dos Estados Unidos, condena o que não passa de um acto de guerra? Alguém sugere sanções, bloqueios? Nada.
Pelo contrário, desde alguns dos principais dirigentes mundiais à comunicação social bem comportadinha, a começar pela “CNN”, todos pretendem explicar que sim senhor, foi um ataque à Síria mas para desmantelar “mísseis sofisticados” – os mísseis dos outros são sempre “sofisticados” – que seriam destinados ao Hezbollah, por acaso o movimento que nos últimos 25 anos tem sido o garante da independência do Líbano contra as tentações colonialistas e desmanteladoras de Israel. Assim sendo, pronto, Israel pode bombardear a Síria amanhã, depois e depois, bastando para tal que alguém diga algures que vai seguir um carregamento de mísseis sofisticados para o Hezbollah, a primeira organização a impor insucessos militares a Israel, e já por duas vezes.
Este último bombardeamento israelita contra a Síria, o quarto do ano, tem uma carga simbólica reforçada: aconteceu no mesmo dia em que a Organização para a Destruição das Armas Químicas (OPAQ), há poucos dias agraciada com o Nobel da Paz, anunciou que concluiu o processo de destruição dos meios que permitiam à Síria fabricar armamento daquele tipo. Isto é, um país que cumpre em tempo recorde o conteúdo de uma resolução desarmamentista do Conselho de Segurança recebe como recompensa um bombardeamento cometido por uma nação que se ufana de não respeitar as resoluções do Conselho de Segurança desde o momento em que foi criada, já lá vão 65 anos. Para não falar também do facto de a resolução cumprida por Damasco não cuidar de impedir os chamados rebeldes de possuírem, e usarem, armas químicas.
Há poucas horas, uma delegação do Parlamento Europeu que se deslocou aos territórios palestinianos da Cisjordânia e Jerusalém Leste – depois de ter sido impedida de se deslocar a Gaza pelos responsáveis israelitas – admitiu que o comportamento do governo de Israel, sobretudo desenvolvendo a colonização nas regiões onde futuramente deveria assentar o Estado da Palestina, põe em risco a “solução de dois Estados” para a região de que se fala com tanta unanimidade de Washington a Bruxelas, de Camberra a Pequim, Tóquio, Londres e Moscovo. Ou seja, a “comunidade internacional” continua a entreter-se com um objectivo que Israel, dia após dia, mesmo naqueles em que manda os aviões bombardear a Síria, Gaza ou o Líbano, inviabiliza enquanto acusa os inimigos de boicotarem um “processo de paz” que o governo israelita há muito liquidou, com a conivência dos mediadores e maiores aliados, os Estados Unidos da América.
Depois ainda há quem se surpreenda com o estado a que o mundo chegou. Basta olhar para a degradação ética, humanitária e de princípios a que chegaram os dirigentes que formam a elite governante mundial.

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