Opinião

A rainha das zaragatas

Artur Queiroz |

No tempo em que o homem era burro e o burro era homem existia uma casa discreta, nas cercanias da Mutamba, onde prendadas meninas fumavam e tratavam os desconhecidos por tu. Mariazinha, uma senhora quadrada e de nariz aquilino, abria e fechava as portas do paraíso. Aquilo era um luxo, só acessível a quem recebia um salário decente, pronta e pontualmente.

A rechonchuda senhora tinha um rádio Zenith que apanhava ondas médias e curtas. Um locutor com voz grave dizia: ici Brazzaville. Radiodifusion et Télévision Française! E a seguir vinha música clássica ou cançonetas abrilhantadas pelo som metálico dos acordéons.
Os cavalheiros faziam sinais discretos às damas e elas, com ar púdico, olhos no chão, acompanhavam-nos à alcova do pecado. Quem não tinha peito para tanto, limitava-se a beber umas cervejas e ouvir canções francesas, entremeadas com sinfonias de Mozart. Madame Mariazinha tinha o seu quê de zaragateira. Por tudo e por nada desatava aos gritos contra os clientes e as meninas. Enquanto ululava insultos, as banhas do pescoço ondulavam e o ventre esbarrondado subia e descia num movimento convulsivo que ameaçava tragédia. Os clientes que eram alvos dos seus gritos metiam o rabo entre as pernas e mudavam-se para a Maria das Pressas. Ou faziam uma incursão ao Bairro Operário onde Mamã Cagalhoça era infinitamente paciente e tratava os fregueses como filhos.
Um dia destes liguei o televisor na TVI24 e vi a senhora deputada Ana Gomes, figura de proa do Partido Socialista e poderosa deputada no Parlamento Europeu. Sua excelência gritava tanto que um atarantado deputado do PSD, Carlos Abreu Amorim, se pudesse, pedia asilo político à saudosa Mariazinha ou ia ao quintalão de Mamã Cagalhoça beber um dedal de maruvo de bordão, o nosso glorioso champanhe nacional, para descontrair. Os gritos da diplomata faziam tremer o estúdio e deixaram o moderador em estado catatónico, incapaz de pôr ordem no circo.
A gritaria de Ana Gomes era contra os investidores angolanos. Sua excelência berrava que berrava e a enxundia do pescoço tremia como um pudim flã. Não lhe vi o ventre, mas presumo que subia e baixava como o da madame Mariazinha. Confesso que da gritaria, pouco percebi. O deputado Carlos Abreu Amorim, de vez em quando, perguntava-lhe se as autoridades portuguesas deviam recusar ou “filtrar” o investimento angolano em Portugal. E ela metia a Interpol e os americanos no meio dos gritos. Uma verdadeira diplomata de carreira.
Enquanto me deliciava com este espectáculo gratuito, pus-me a pensar coisas. As fontes de Ana Gomes são americanas. Espero que não sejam as mesmas que descobriram armas de destruição maciça no Iraque e até mostraram na ONU o mapa das fábricas e a matrícula dos camiões que transportavam o material letal. Americanos e Interpol, pelos vistos, não gostam de guardar segredos e partilham-nos com a diplomata socialista Ana Gomes. Que bom!
Enquanto a madame gritava como uma criança desmamada, vislumbrei a parte superior do seu gracioso bandulho. Nos tempos da Mariazinha, as mulheres vaidosas disfarçavam as barrigas proeminentes com cintas de elástico. Ficavam muito esbeltas. Mas quando tiravam o milagroso artefacto, elas começavam a deformar-se e ao menor movimento as banhas estremeciam graciosamente. Hoje uma mulher só é pançuda se quiser ou fizer questão em impressionar pela disformidade.
Confesso que não apreciei os gritos da diplomata socialista Ana Gomes e muito menos os seus insultos aos investidores angolanos. Quem grita assim não é gaga e tem as costas quentes. O líder do Partido Socialista, António José Seguro, está há muitos anos ligado a um partido de oposição em Angola que, de resto, era apadrinhado pelo seu chefe: Mário Soares. Por isso, a senhora deputada do Parlamento Europeu limita-se a dizer o que o secretário-geral do PS, por puro oportunismo político, não pode dizer. Espero que um dia compreendam o equívoco em que vivem mergulhados. Quando isso acontecer, o deputado socialista João Soares deixa de ser traficante de Rafael Marques. E a diplomata socialista Ana Gomes não trafica o mesmo produto.
Como gesto de boa vontade termino esta crónica à média luz, mais canhestra que legível, com um conselho à senhora deputada europeia Ana Gomes. Para ficar um tudo nada mais apresentável, experimente pôr uma banda gástrica na boca. Vai ver que perde a pança e deixa de dizer disparates. Sabem o que aconteceu a madame Mariazinha? Um dia fez uma zaragata igual à de Ana Gomes e a polícia fechou as portas do paraíso. Teve que abrir um botequim mal-afamado no meio dos cajueiros, lá para os lados da Terra Nova.

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