Opinião

Bandeira de Samaria e a flor do pântano

Artur Queiroz |

Os pântanos dos braços do Tumpo e do Cuito  estão floridos. As folhas redondas dos nenúfares alimentam belíssimas flores brancas com um ponto amarelo no meio. As águas escuras servem de fundo aos círculos verdes e cada um suporta a flor. A massambala está cheia de grãos e o capim alto guarda a vida das pequenas lagoas. Há mulheres no rio lavando o corpo e a roupa. No alto da colina, com dois eucaliptos de guarda permanente, está a aldeia de Samaria.

Em Março de um ano que foi ontem, os habitantes da aldeia sofreram os horrores da guerra. Por trás das casas serpenteia o rio Cuito, com as águas murmurando uma melodia que me aperta o coração. Quando os canhões de Pretória despejavam a morte sobre as casas pobres de Samaria, todos se refugiavam numa ilha do rio. O fumo e a poeira dissipavam-se, eles regressavam às suas casas e continuava a luta. Não pela sobrevivência. Era a resistência de um Povo que nunca se vergou à ameaça dos nazis de Pretória e seus servos da vileza.
Hoje Samaria tem centenas de crianças que soltam no ar gargalhadas límpidas como os céus do Cuando Cubango. As mulheres vestiram as mais apresentáveis roupas e cantaram com suprema suavidade o seu hino à nossa Bandeira, enquanto subia no mastro. Está a subir, a subir, a subir.
Já voa tão alto, que só os olhos dos patriotas, os que encostam a pele ao chão e abrem as veias na terra, conseguem ver. A nossa Bandeira subiu tanto em Samaria, no Tumpo, nas colinas onde jazem os destroços dos tanques Oliphant, última maravilha da indústria bélica num consórcio entre a então República Federal da Alemanha e a África do Sul do apartheid nazi. Nessa época, Pretória sofria um embargo da comunidade internacional. Mas era só para inglês ver e os ingleses nada viam, nada ouviam, nada sabiam, como os macacos amestrados na arte da discrição.
(No Triângulo do Tumpo ficaram para sempre as mãos decepadas do poeta e o mundo não soube do desastre universal)
As flores dos pântanos do Cuito e do Tumpo saem das rodas verdes, inteiras e verticais. Ninguém olha para a flor do pântano. Nenhum olhar se comove com aquela beleza solitária que tenta desesperadamente atenuar a violência mortal das coisas tristes. Há corpos sepultados nos areais. Amantes, filhos ou maridos que de tão desconhecidos, começaram a ser pó cinza e nada antes do tempo.
A memória vomita súplicas nunca deferidas e arranca aos escombros dos velhos fracassos, sonhos decapitados à nascença. Um violão sublinha o canto desesperado de uma sambista desolada: meu amor se tu soubesses como é triste viver desde que partiste sem sequer dizer adeus...
A  Bandeira subiu em Samaria e as mulheres cantaram um hino celestial que ecoou na chana do Triângulo do Tumpo. Um general com voz potente e o peito cheio de razão informou que os habitantes de Samaria, nos intervalos dos bombardeamentos abasteciam os nossos soldados e ajudavam a cuidar dos feridos. Quando acompanhavam os funerais, morriam destroçados. Os nazis de Pretória tinham as coordenadas do cemitério improvisado e quando viam o cortejo fúnebre lançavam os obuses dos canhões de longo alcance. Para enterrar um morto, os Heróis de Samaria pagavam com a vida de mais dez.
(Uma cabra cega marra contra o vento na imensa planície do Tumpo)

Ao lado da Bandeira Nacional temos de colocar um mastro gigante com a bandeira do MPLA. proposta de general não volta atrás. Ainda que já esteja desfraldada nos nossos corações, é preciso que ela marque também a vitória do Povo Angolano sobre os nazis de Pretória, na Batalha do Cuito Cuanavale.
Não me venham dizer que os generais têm de ser apartidários. Sim, é verdade. Mas também não são castrados. Todos os angolanos, mesmo os que pertencem e votam nos outros partidos, devem ao MPLA tudo o que são. Nacionalidade, cidadania, liberdade e o orgulho de ser angolano aqui e em toda a parte.
Alguns, poucos, devem-lhe os mundos e fundos que têm. Outros, muitos mais, devem-lhe a vida. Estavam prestes a exalar o último suspiro, quando Savimbi tombou, sem honra nem dignidade, nas matas do Lucusse. Os seus seguidores podiam ter o mesmo destino mas foram salvos. Devem a sua segunda vida ao MPLA. Mesmo que vivessem mil anos, nunca conseguiriam pagar a dívida. Mas a generosidade dos vitoriosos é tanta, que nada devem. Era bom que todos, sobretudo os políticos, tivessem a mesma grandeza. Eu também quero a bandeira do MPLA na aldeia de Samaria, dia e noite, acenando às flores dos pântanos do Tumpo e Cuito. As vitórias do Povo Angolano são para celebrar de peito aberto e o coração limpo de ressentimentos e do veneno da vingança.
(Oiçam o samba de Linda: Você há-de rolar como rolam as pedras da estrada sem nunca ter um cantinho de seu!)
No Triângulo do Tumpo fiz uma vénia à Bandeira Nacional e depositei lá uma rosa em memória de todos os mortos pela liberdade, desde o Cuito Cuanavale até ao Ntó. Mas também pelos vivos. Os que trabalham a terra e dela arrancam o pão banhado em suor. Os que enfrentam o mar e dele tiram o pão que mil diabos amassam todos os dias. As nossas crianças que crescem num mundo livre e que jamais enfrentarão a injustiça, a indignidade e a servidão. As nossas mulheres que todos os dias “nascem” filhos com os olhos postos no futuro. Os nossos. Que são todos aqueles que amam e sofrem, lutam e perdem, resistem e ganham. Mimi, toda de branco e um sorriso que vai do Tumpo às alturas do assento etéreo que espera os nossos Heróis, disse-me ao ouvido que as suas flores são para a nossa Bandeira. Dos meus olhos saltou tanta alegria que o canto das mamãs da OMA parecia um silêncio. A menina do Tumpo já sabe honrar a História.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia