Opinião

Bom Jesus à janela do rio Cuanza

Artur Queiroz

A corrente do Cuanza vai rápida e as águas arrastam grandes tufos de capim. Os pescadores ficam em terra porque as choupas e os cacussos não gostam de águas barrentas. Isso é para jacarés traiçoeiros que comem almas vivas e trucidam corpos.

Estou sentado sob uma frondosa figueira-da-índia mesmo na margem do rio, em frente às ruínas da açucareira, onde meu pai comprava carradas de açúcar que depois ia vender na rota da candonga, do Cuanza Norte a Leopoldeville, com paragem em Maquela do Zombo, na casa grande de dona Áurea Marreiros, rainha do comércio geral e dos machimbombos que palmilhavam todo o norte.
Muitos anos mais tarde, já andava com os olhos abertos para a reportagem, conheci um Bom Jesus muito diferente, numa crónica de Norberto de Castro, o maior radialista angolano de todos os tempos, repórter e cronista inigualável. Escreveu o texto derramando lágrimas pela morte do pai. Desde aquele dia, jurei que havia de cronicar como ele, mas reconheço o fracasso.
(Podem arrasar os palmares e os canaviais. As pastagens dos olongos e o canto do martrindinde. Mas não nos roubem o minuto que temos para apascentar os sonhos). O sol do meio-dia libertava ondas de calor na margem do Cuanza. Na mesa ao lado choviam histórias refrescantes do tempo em que a açucareira funcionava. O Mário Motorista deu uma surra monumental ao Mário Electricista. Tudo porque a excelsa esposa do Mário Motorista sentiu a corrente eléctrica da paixão gerada pelo Mário Electricista. Quem nunca pecou por amor que atire a primeira acusação de traição.
As ruínas da açucareira do Bom Jesus lançam fantasmas no ar. A cerveja corre tão caudalosa como o Cuanza à medida que o calor aperta. Uma velha entra na sua canoa mas o cão salta lá para dentro antes dela, abanando o rabo de contentamento. A canoeira corre com o bicho e parte para a outra margem. O cão atira-se à água e vai atrás da canoa, nadando vigorosamente. A corrente forte afasta-o da rota da dona. Chega ao destino muito abaixo do porto onde a canoa atracou. Corre louco até à dona. Só vejo o capim abanar. Uns minutos depois saltava ao ventre da dona, feliz como um passarinho. Um bebedor de cerveja diz que é sempre assim. A velha corre com o cão e ele vai atrás da canoa. Um dia aparece no seu caminho um jacaré traiçoeiro e a velha fica sem o único ser vivo que a ama. São coisas da vida.
(Podem tornar a terra daninha e salgar as veias dos riachos Façam até de cada amanhecer uma derrota definitiva, mas deixem-nos viver o derradeiro minuto no labirinto da tristeza). Os fantasmas libertam-se das ruínas da açucareira do Bom Jesus. A minha memória já leu mil vezes a crónica de Norberto de Castro dedicada ao pai. Um fantasma colocou à frente dos meus olhos uma menina preciosa que vi à janela do mar do Ambriz. Tinham-me levado na mayombola e prisioneiro lá fiquei mil anos e aquele dia. Ela deu-me um beijo e desde então nunca mais morri. Voltei e aqui estou, na margem do Cuanza, impiedosamente agredido pelas ruínas da açucareira do Bom Jesus. Um dia, vou escrever uma crónica à memória do meu pai e das minhas mães.
Esqueci o nome da menina que vi à janela do mar do Ambriz. Isto, sim, é uma traição. Porque foi graças a ela que nunca mais morri. Nem quando silenciaram a txianda e sangraram a palmeira. Ou lançaram no pântano da morte a liberdade moribunda, que conquistámos naqueles anos gloriosos da resistência popular generalizada.
(Podem matar com os ferros da traição, os sonhos que acalentamos. Mas deixem-nos um minuto de silêncio para beijarmos a brisa da madrugada)
O Papagaio da Jamba exibiu aos deputados o meu contrato de trabalho. Entre tanto ilustre jurista, ninguém se indignou com tão grave violação à reserva da minha vida privada. Agora andam a meter o contrato por baixo das portas dos gabinetes da empresa onde trabalho.
Puseram debaixo da minha porta a soma de quanto custa o senhor deputado Raul Danda. Rasguei a papelada. Eu sei que a democracia é muito cara. Baratinha é a ditadura. Aquilo na Jamba custava uns míseros dólares e rands. Umas pedras de diamantes pagavam tudo e ainda dava troco.Puseram debaixo da minha porta um papel com a soma de quanto custa um administrador de empresa pública. Rasguei e deitei fora. Angola sem “acomodados” era mais triste que um jardim sem flores. (Um pastor de tristezas nunca perde o rumo das estrelas e jamais se rende à violência das violetas).

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