Luanda colorida por Zan ao som de uma canção tchokwe
Artur Queiroz |
Ninguém nos deu a cidade, fomos nós que a seduzimos e com ela dormimos sonhos assombrados com asas de anjos caídos e lábios carnudos de mulheres enredadas na mais antiga trama do mundo: o amor.
Tínhamos rotas no coração que iam do quintalão do Elias, no Marçal, até ao Marítimo da Ilha, onde Calypso nos aspergia de água colhida nas profundezas do mar e com ela dançávamos uma rumba de cajon. Nesse tempo de gajajas maduras, o Ole lançava o seu olhar cósmico sobre o Salão de Luanda e o Zé Andrade rasgava a noite amavelmente suave, com o saxofone avant-garde de Archie Shepp, a construção fabulosa dos dedos de Mingus, o silêncio da madrugada diluído nas notas azuis de Coltrane. Perdemos o último comboio com destino ao paraíso e ficámos no palácio de Dido, limpando-lhe as lágrimas derramadas por Eneias, até à eternidade. Um dia perdemos o tempo no sentido dos ponteiros do relógio e lançámos um papagaio de papel no horizonte amparado à Barra do Cuanza. Tanto vento, tanto mar, tanta gaivota à deriva nesses dias de chumbo, liberdades confiscadas, gargalhadas contidas em bocas enferrujadas. Resistimos a todos os infernos, vivemos na margem, bebemos o vinho que o diabo mijou. Mas nunca nos rendemos, nem aomuzongué da Silvinha. (Os músicos trouxeram mucupela à bandoleira/ coros animam as divindades/ antepassadas tão presentes/ há coleantes corpos ornados de uma Lua crescente/ onde zunem os guizos do muia/ ninguém viu, meu amor, a solidão do lenhador/ os golpes do machado na seiva da mussassala/ ninguém aplaudiu, minha amada, a paciência do caçador/que manchou as mãos de sangue quanto tirou a pele do ncai.) Assim fomos por becos e caminhos arruinados. O Ole fotografou aquele pai com uma lenta dos óculos partida. Aplaudimos. Depois ele levou-nos a um mergulho na arte do feitiço e descobrimos Nova Iorque. Só pode ser aquilo. Andy Wahrol nunca saberá que a lagoa prodigiosa que se enche sozinha é um coco no seu caminho verde. Já me quiseram levar à cidade do Harlém mas recusei. Não pode ser melhor do que aquela tela fabulosa do Ole. Zan um dia libertou-me do feitiço, na casa da Samba. Mostrou-me uns murais acabados de nascer e pôs o Dollar Brand (Abdullah Ibrahim) sozinho ao piano. Nesse dia escrevi um poema dedicado aos olhos chorosos de Dido. (Mãe, minha mãe, vê como é belo o sol no meu cabelo) Na música era o Zan. Nos acrílicos, absolutamente Zan. Fizemos um programa de rádio que bateu todas as audiências. O “Contacto Popular” com a voz da Conchinha de Mascarenhas seria tão sublime como o olhar púdico de Dido sobre as nossas bebedeiras, as alegrias fingidas que disparávamos ao coração das tropas de ocupação. Chorávamos por nós às escondidas e perdíamos em todas as roletas. O Pessoa nunca conheceu ninguém que tivesse levado porrada. Se frequentasse aqueles tempos de chumbo,
se tivesse bebido connosco um muzongué, tinha conhecido vários, que éramos nós. O Zan voltou a casa. As nossas ruas, não nos conhecem. O Flamingo morreu. As nossas amadas, amantes em brasa, desapareceram das memórias das famílias que amorosamente construíram. Peço a André Gide que se contenha. Grito eu por ele: Famílias, odeio-vos! A cidade não nos conhece e Zan trouxe-a em cada tela, em cada gesto da mão, na magia do pincel e do acrílico. A nossa cidade é aquela amálgama de cores, aquele suspiro de saudade dolorosa, aquele grito incontido,o pedido de desculpas por continuarmos livres e insubmissos. (Tão doce o sussurrar das águas da lagoa que transbordou/ do tumultuoso correr do Cassai o rio da nossa cultura ignorada/ onde nasceu a voz do sangue e os passos da txianda/ cacareja o cassumbi quando tocadores rebentam a pele do golungo/ a mulela pariu o tambor que faz voar teus passos, meu amor/ o ulezo muda o som para salvar os desgraçados tão tristes/nesta dança com palmas uculé, uculé, círculo de dor roda com os astros/ ainda somos filhos do Cassai e esculpimos corações na face da Terra.) O sol nasce no corpo da cidade macerado de feridas e ausências. Não há sangue nas nossas veias. Mas a pintura de Zan é quente como a brisa que sopra das anharas de olongos e gungas. Eu vim do mato, onde os corpos nascem verdes da serra do Pingano. O meu caminho é sempre desconhecido. Só deixa perceber que começa nas colinas de Catunda, na lagoa prodigiosa, onde o prazer começa e o mundo explode em nós. (Mãe, minha mãe, parti a cabaça no manancial do Mbango, que pobreza!) Absolut Zan é arte. O artista criou a sua obra no primeiro dia do Mundo e trouxe-a até hoje, a Luanda, cidade que tem um relógio parado à espera do próximo comboio para as profundezas da Baía, onde Calypso repousa até ao dia em que reabrir o salão do Marítimo. Eu levo uma rosa amarela, que peço emprestada a Cartola. Ao jardim, havemos de voltar. E o moinho triturando sonhos. (A aldeia de Xangongo dorme nas águas do Luhopo/ e lá injuriaram minha bem amada mãe/ nossa adorada mamãassaa mandioca pensa nas grilhetas/ dá um suspiro tão fundo como a funda sepultura/ uotxa lupa, vaindama! Uotxa lupa, vaindama!/ os feiticeiros conspiraram para paralisar o sangue da mamã/ nganga hanguiatxihungo. Nganga hanguiatxihungo!/ Já fui a tua criança sou a tua cria e morre lentamente o teu sangue nas minhas veias.) A arte é tão comovedora como as lágrimas eternas de Dido. Aas cores, as formas, a geometria dos sentimentos, o amor sem garantias financeiras. É absolutamente Zan e um poema tchokwé. (Ngué, quemba, ngué, quemba, mam’é. Nguéquemba, mama, ieléhé!)