Opinião

Luanda na sombra do Cadaval

Artur Queiroz |

O meu professor de Ciências Naturais, no Liceu Salvador Correia, um dia levou a turma ao Museu de Angola, ali mesmo no Kinaxixi, com vistas para a Floresta e pátria sonora de mestre Arnaldo Santos.

Vimos os bichos embalsamados que até pareciam vivos, da hiena à palanca negra gigante. Mas numa sala mais pequena vi  penduradas nas paredes, belíssimas telas do pintor Roberto Silva, filho do Golungo Alto e mestre de todos os mestres.  Do outro lado da sala, estavam telas de outro génio: Neves e Sousa,  com uma queimada fantasmagórica.
A completar a caixinha das maravilhosas surpresas, figuras grotescas de um surrealismo militante, da autoria do grande Cruzeiro Seixas, que antes de sair de Angola, empurrado pela PIDE, fez uma incrível exposição numa daquelas casas assombradas no beco ao lado do Cine Restauração, hoje Assembleia Nacional.
Ontem fui rever a Loanda do antigamente, à Rua dos Mercadores e tive uma surpresa que quase me paralisou para sempre este coração vagabundo. O velho Grande Hotel Luanda está a ser recuperado! Um letreiro diz-me que vai ser a nova casa de uma associação cultural Brasil-Angola. Eu sei que arquitectura é muito mais do que fachadas, por isso o meu entusiasmo esfriou, quando imaginei o que foi feito do bar, da sala de leitura, da sala de jogos e outras dependências dignas de um grande hotel.  Já sei que não se pode ter tudo e se a organização do espaço original foi à vida, ficou a fachada e as paredes laterais. Mas ouso fazer um pedido: dediquem uma das salas ao mestre Roberto Silva. Vão à procura das suas obras extraordinárias. Para facilitar, dou uma pista. Mestre Roberto Silva tinha “escritório” no bar do Hotel Luanda.
 Passámos lá tardes gloriosas à bebida e à conversa, na companhia da sua modelo favorita, Perpétua Rosa. Ela está imortalizada num busto que o mestre pintou, quando veio do Golungo Alto, ainda menina. Como dizia Manuel Bandeira, era ainda um botão.
O reino do mestre era o Bairro dos Coqueiros. Quando estávamos endinheirados íamos beber finos ao balcão da Brilhante, da Madrid e do Baleizão. Mas por mais voltas que déssemos, o poiso final era o bar do Hotel Luanda. O meu compadre Tarique fiava-nos a bebida. O Morais do Hotel Luanda, também. Às vezes esqueciam-se de cobrar ou perdiam os papéis onde estavam registadas as nossas dívidas.
Há muitos anos, fui fazer a cobertura de uma candidatura presidencial ao Cadaval, em Portugal. No largo principal da vila, vi um homem com uma muxinga a fazer de cinto das calças e um saco de plástico na mão. Era mestre Roberto Silva. demiti-me naquele instante de repórter e fui abraçá-lo. Demos umas quantas voltas e fomos parar a um botequim onde ficámos horas esquecidas. Vinha mais um jarro de tinto e a conversa ganhava asas. Mestre Roberto Silva desenhava aperitivos na toalha de papel:
- Roberto, agora vamos comer camarões! E ele desenhava um pratinho de camarões.
- Agora quero dobrada! E ele desenhava um pratinho de dobrada. Ginguba! Quero ginguba. E ele desenhava um pratinho cheio. Chocos! Dá-me chocos! O mestre desenhava uma dose de chocos. Metia o dedo no copo de vinho e coloria os manjares. Àmédia noite, quando os corações sangram de saudade e tremem de amores, perguntei-lhe:
- Tens saudades de Luanda? O mestre olhou-me com ar reprovador e disse:
- Continuas linear e burro! Nós nunca saímos de Luanda. Nunca! No Cadaval, mestre Roberto Silva foi protegido por uma senhora de teres e haveres. Tem imensas telas dele. Vão ao Cadaval, que é como se fosse Luanda, e descubram as telas. O conde de Paço D’Arcos também foi mecenas de Roberto Silva. Presumo que tem muitas obras dele. Arranjem algumas telas para a sala em sua homenagem no renovado Grande Hotel Luanda.
Ou então vamos saber onde estão as telas do velho Museu de Angola e vamos transferi-las para lá. Os Coqueiros e outros bairros típicos de Luanda tiveram um artista divino: Carlos Ferreira “Lito”, que os imortalizou em aguarelas.
Mestre Roberto Silva criou uma Angola única, que se vai perder, caso não sejam recuperadas as suas telas.
Nas minhas andanças perdi os toalhetes com os aperitivos desenhados e pintados a vinho por Roberto Silva, naquele dia prodigioso em que levámos Luanda a um tasco do Cadaval. Para recompensar os admiradores dopintor, deixo esta crónica. Lá atrás, na penumbra do bar do Hotel Luanda está Perpétua Rosa, a menina do Golungo que se transformou em mulher nas telas do  pintor.
 O Cadaval, nos vinhedos do Oeste de Portugal, foi a sua última morada. Ainda ontem estávamos na esplanada do Baleizão e já a noite se pôs para sempre, na vida prodigiosa de Roberto Silva.

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