Opinião

Outro lado das compras

Guimarães Silva

Ir às compras, é antes um exercício comercial, é arte que implica a troca de serviços, interesses, conhecimento do produto, por vezes, regateio e satisfação por termos conseguido o que almejávamos

Anos de lições ensinam-nos que nem sempre tem sido fácil encontrar o que desejamos. Hoje o recurso às altas tecnologias para compras não está ao alcance de todos para as melhores escolhas. Ainda assim, pode haver risco de gato por lebre, quando o produto está em nossa casa.
Cá, na nossa terra, compramos por objectivos, já que o próprio cumbú é alérgico à poupanças. Quase diariamente vamos à padaria, à pracinha do beco, para aquisição de algo para cozinhar o almoço ou jantar. A aquisição de peixe e carne quando calha, enfim, um exercício que faz parte do quotidiano de homens e mulheres para cubico com a devida logística de sobrevivência.
A compra de produtos sobretudo em postos de ocasião, montados às tardes por vendedores que os transportam de mercados distribuidores como o Mercado do 30, Catinton, Quicolo, Sabadão na Funda, para só citar estes, requer cuidado redobrado. O exercício é geralmente feito às pressas, sob risco de adquirirmos produtos de má qualidade ou deteriorados, o que acarreta reparos da cara-metade.
Ir à compra de peixe já não é tarefa exclusiva do feminino, donas de casa, com conhecimento das escolhas, do produto apropriado e, inclusive, das comadres que vendem a bom preço. Alguns masculinos, diga-se, em bom número, faz tempo, dedicam-se igualmente à actividade, principalmente aos finais de semana, para participar das lides domésticas e, inclusive, controlar igualmente o cumbú.

Exercício pouco conseguido
Via de regra o exercício nem sempre é isolado. Para ir às compras convidamos um ou mais amigos. Assim partimos juntos para a aquisição. Como bom angolano a conversa tem que estar em dia, no aconchego de uma barraca de comes e bebes, enquanto a peixeira de serviço alivia escamas e tripas do pescado.
O perigo espreita por conta da conversa sobre o momento político, artigos nas redes sociais ou o coronavírus. Enquanto estamos nisso, partilhamos copos, canecas e quitutes da banda. O tempo esvoaça, chegamos tarde à casa, provocando alvoroço familiar. Os nossos ouvidos não foram talhados para tanto mau discurso, acreditem.
Quando o casal decide partir para às compras junto, para emendar erros de pecados de tempo, este esvoaça mais depressa ainda, porque alguém entende comprar a loja toda, exalta-se com as vendedoras e acha que tem sempre razão. O almoço de sábado passa a jantar.
Ir às compras sozinho, com uma lista detalhada de produtos a adquirir, tem sido solução de pouca dura. “Tornaste a comprar o feijão? Já o temos aqui em quantidades industriais. Só sabes gastar dinheiro, que custa a ganhar.”
O recurso tem sido a companhia de alguém entre os descendentes mais crescidinhos, de confiança das partes, mas, vezes sem conta, calhamos com aproveitadores de circunstância, que querem igualmente um prêmio de participação: novo telefone, dinheiro para o cabelo, para a sapatilha de marca que custa tão somente 20 por cento do que temos no bolso(!).
Ir às compras ao Mercado do 30 tem altos e baixos. O local é concorrido pela diversidade de produtos de reconhecida qualidade, principalmente agro-pecuários em quantidades industriais, provenientes de várias paragens do país.
Contudo, os diferentes acessos a este colosso comercial que nos abastece de carne bovina, suína, caprina, galináceos, frutas e legumes, são simplesmente sofríveis. Este défice concorre para que muitos potenciais compradores o coloquem de parte na folha de ponto para aquisições, principalmente aos sábados, o dia mais concorrido.
Os mais ousados utilizam os táxis de serviço de e para o local. Compras feitas, o dilema está no regresso à casa ou ao bairro. Na ânsia de mostrar serviços, o “candongueiro” arruma os sacos com os produtos lado a lado, sem distinção. Daí o cuidado redobrado dos passageiros quando alguém chega ao seu destino. Acontece muitas vezes que alguns, por embaraço ou por distração, recolhem produto alheio.
Se o azar bater à porta e um dos nossos sacos for para destino diferente, que explicações apresentar à digníssima? No mínimo, cai o Carmo e a Trindade. Podem crer que as guerras, afinal, começam no seio da família por causa das compras.

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