Uma conferência em Berlim

Artur Queiroz
2 de Maio, 2015

Um dia fui à República Federal da Alemanha para falar da guerra pós-eleitoral, corria o ano da graça de 1993. Antes só tinha estado na parte democrática, anti-capitalista e anti-nazi. 

Hoje recordo essa viagem por uma razão inquietante: em Angola, a seita de Savimbi continua activa e ameaçadora, tal como naquele tempo. Viajei acompanhado dos meus amigos Carlos Mac-Mahon de Vitória Pereira, o Tio Mac, e Manolo Simeão, líder do partido PLD. Fomos os três a Berlim participar numa conferência internacional sobre as primeiras eleições multipardiárias que a UNITA perdeu estrondosa e merecidamente. À festa do voto, sucedeu-se o pesadelo da guerra.
A conferência estava dominada por gente ligada à UNITA, que acreditava piamente nas mentiras de Savimbi e seus comparsas, propaladas através da comunicação social portuguesa. Fiz lá revelações que deixaram os alemães em choque. E ainda antes da ONU, revelei naquele fórum que Savimbi era um criminoso de guerra. Expliquei porquê. Entre Hitler e Savimbi não havia a menor diferença. E o que era diferente, favorecia o monstruoso chefe do III Reich.
O Manolo, o Tio Mac e eu não comprámos máquinas.  Salvo algumas bebidas quentes, nos bares de Berlim. A segunda e última vez que visitei aquele país, viajei na Gemain Wings de Lisboa para Estugarda. Tive a felicidade do co-piloto não atirar com o avião contra os Alpes. Fui de avião, com o meu mais velho, e voltei num carro que ele comprou em segunda mão. Eu nada comprei. Os alemães são demasiado bons a fazer bebidas. Eu estou mais afeiçoado às falsificadas. Nada na vida suplanta um uísque marado em companhia de uma dama da noite, daquelas que vivem cada segundo como se fosse o mais maravilhoso de sempre. Também são excelentes a fazer carros e eu prefiro as réplicas dos chineses porque podem acabar antes de mim, o que me dá uma sensação de euforia e de eternidade. Com alemães jamais farei qualquer negócio, nem de cerveja.
Nessa viagem a Berlim, o meu querido e saudoso amigo Manolo entregou-me vários escritos de sua autoria e um estudo sobre os Kyalas, onde Savimbi é descrito como um perigoso charlatão que fez uma mistura explosiva entre o nazismo e o fanatismo religioso, “temperada” com elementos obscuros dos feiticeiros tribais. Tenho tudo guardado. São manuscritos preciosos que ele me confiou na base de uma amizade que envolvia também a Anália e os seus irmãos Rui e Milo Vitória Pereira, com quem convivi ao longo da vida, desde o Negage, quando eram agrimensores e futebolistas de excepção, no “Porto” do Uíge.
A única compra que me deu uma fortuna incalculável, foi um lenço belíssimo, numa loja do Ambriz, para oferecer a uma menina mais bela que as fadas e princesas, que conheci no alpendre de zinco do hotel da vila, quando um dia o meu pai foi vender uma carrada de café comercial, puro caturra, ao comerciante João Martins.
Quando lhe ofertei o lenço, ela corou e deu-me um beijo tão casto e puro como a flor do cafezeiro. Voei com as gaivotas e quando poisei no alpendre ela disse-me que vivia em frente ao candeeiro número 22 da Rua Eugénio de Castro, em Luanda. A Vila Alice, reino dos irmãos Correia Mendes.
Em Março de 1961 cheguei a Luanda na condição de refugiado. A primeira coisa que fiz, foi procurar a rua e o candeeiro número 22. Em frente, lá estava a casa, de rés-do-chão e primeiro andar, com uma grande varanda. Peguei na menina que encontrei no alpendre de zinco e coloquei-a na varanda. Repeti o sonho durante dias esquecidos. Mas nunca mais a vi.

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