Opinião

400 anos de “presença angolana” na América

A celebração dos 400 anos da chegada dos primeiros africanos à América do Norte, acidentalmente depois de terem sido “roubados” de um navio negreiro português, está a gerar as mais variadas manifestações políticas, culturais, literárias e jornalísticas.

Vale recordar que se trata de 20 os que saíram da bacia do Cuanza e que a História comprova como falantes da língua Kimbundu, tendo chegado no dia 25 de Agosto de 1619 na colónia de Jamestown, território do actual estado da Virgínia, nos Estados Unidos da América. Esse facto marca, de alguma maneira, a saga cruel, hedionda e criminosa, por que passaram centenas e depois milhares de africanos, sobretudo depois da oficialização da escravatura, cerca de vinte anos depois. Trata-se de um dado histórico, que levou o Jornal de Angola a dedicar “páginas especiais”, na sua edição de hoje, ao evento que marca quatro décadas de presença angolana na construção de uma das importantes nações do mundo. Embora passem despercebidas as iniciativas de celebração dos 400 anos da chegada dos primeiros africanos, representam também um ponto de partida para a compreensão de fenómenos que acompanharam e acompanham os descendentes deste segmento da população americana.
Conhecidos na História, na cultura e celebrizados em filmes e documentários como “20 and Odd” (vinte e estranhos), os primeiros africanos, naturais do Reino do Ndongo, representam um marco importante nos laços comuns entre os africanos em geral e a comunidades afro-americana.
Numerosos sectores defendem a necessidade de maior intercâmbio entre África e o que muitos denominam como a sua diáspora em toda a América e Caraíbas. Tal como sucede em áreas artísticas, académicas e recreativas, apenas para mencionar estas, não cessam recomendações, vistas nas intervenções de numerosos intelectuais, empreendedores, nos dois sentidos, para o reforço dos vínculos.
Na verdade, na componente didáctico pedagógica, não seria exagerado dizer que pouco ou nada transparece ao nível do esperado intercâmbio, a julgar pelas reduzidas trocas se não mesmo vazio de inter-conhecimento envolvendo publicações africanas produzidas no continente e edições literárias na América sobre África.
O desconhecimento do lado positivo do legado dos africanos e descendentes, que contribui para os estereótipos e outras considerações, algumas depreciativas, podiam ser mitigados se houvesse um aumento do intercâmbio e promoção dos aspectos positivos. Afinal, a presença africana na América, do Sul e do Norte, não se resumiu ao trabalho escravo, na medida em que milhares de descendentes contribuíram nas outras esferas da vida, e com muito mérito. É esse lado da História dos povos africanos que foram levados à força para o chamado Novo Mundo que se traduziu também em contributos importantes na política, música, desporto, ciência e tecnologia, nem sempre devidamente estampados e divulgados.
Quatrocentos anos depois e como disse em entrevista ao Jornal de Angola, o historiador Filipe Vidal, “nós os angolanos temos de despertar e entender que somos um dos povos que civilizou o Novo Mundo”.

 

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