Opinião

A democracia em África

Os povos, os Estados e as suas elites, quer civis quer militares, devem saber fazer leitura correcta dos tempos para que, com "savoir-faire", saibam evitar situações completamente previsíveis.

A democracia em África é irreversivelmente a forma menos pior de governação e com a qual os povos africanos tendem a identificar-se melhor relativamente a todas as outras. O histórico de autoritarismo e ditadura no continente enraizou alguma crença segundo a qual os povos africanos seriam mais facilmente governáveis com regimes que portavam aqueles dois emblemas atrás mencionados.
Hoje, passados mais de duas décadas desde que, de maneira avassaladora, África aderiu à democracia liberal e independentemente da velocidade nem sempre coincidente em todo o continente, não há dúvidas de que os povos africanos podem também viver em democracia. Os poucos Estados que vivem ainda  situação de governação que mais se aproxima ao autoritarismo, mesmo sob a capa da democracia, devem ponderar sobre o binómio custo e benefício de tal aventura. O tempo está agora a provar que os benefícios da abertura democrática, respeito pelos direitos humanos, boa governação, pluralismo político e de ideias, debate envolvendo todas as sensibilidades, entre outros, não tem comparação absolutamente nenhuma com a manutenção do povo sob um regime  autoritário. O que sucedeu no Sudão, com a deposição do Presidente Omar al-Bashir, e na Argélia, com a destituição do Presidente Abdelaziz Bouteflika, em que os militares, nos dois países, leram correctamente os ventos da História e ouviram a voz do povo, é corolário simples do que se diz.
Há situações completamente previsíveis que as elites de todo e qualquer Estado devem ser as primeiras a ler e tomar decisões, algumas difíceis, mas obviamente vitais para o Estado, as suas instituições e populações. O erro sistemático de se encarar o povo como uma "massa amorfa", além de não ser característico de entidades democráticas, acaba quase sempre em transformar-se como feitiço que se volta contra o feiticeiro.
Como dizia um conhecido filósofo "a democracia não é apenas boa porque permite que os bons cheguem ao poder, mas igualmente porque permite aos maus de lá serem apeados", uma realidade que, muitas vezes, ocorre com naturalidade. Em África, a democracia é já parte importante do "modus vivendi" político e cultural no continente, razão pela qual não faz qualquer sentido negar ao povo o direito de decidir e de ser obedecido. Fazem bem as forças armadas, em muitos países exactamente um esteio contra o caos, quando inviabilizam que o Poder Político caia na rua e impedem que todo um país esteja refém de uma entidade que se quer agarrar ao poder. Também não somos apologistas de que as ruas decidam a sorte dos entes democraticamente eleitos e que, por más opções políticas, tenham maus resultados ao longo da governação. A democracia em África é para ser respeitada pelos governantes e pelos governados.

 

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