Opinião

Adeus camarada Mugabe

As grandes figuras, no momento de partida para o descanso eterno, acabam sempre por suscitar debates intermináveis em que se dividem aqueles que apoiam o seu legado e os que se opõem. Inclusive o fundador do cristianismo, há mais de 2000 anos, cujo legado persiste até aos dias com seguidores e detractores, a sua vida e obra produz sempre posições fracturantes. Nada parece ter mudado na medida em que, independentemente da obra deixada, os homens que se destacam nas sociedades modernas provocam, via de regra, os alinhamentos nem sempre convergentes.

África testemunha amanhã as exéquias fúnebres do antigo Presidente Robert Gabriel Mugabe, falecido no dia cinco de Setembro e que, à semelhança do exposto atrás, deixa um legado que divide em particular a sociedade zimbabueana e em geral a comunidade internacional. Mas não há dúvidas de que para a grande maioria, em todo o continente africano, Robert Mugabe foi um pan-africanista que se bateu pela dignidade do seu povo, pela soberania do Zimbabwe e pela unidade africana. Não se pode perder de vista o papel nacionalista de Mugabe e camaradas de armas que se bateram contra a instalação de um regime de minoria branca na antiga Rodésia do Sul, uma espécie de prolongamento do Apartheid sul-africano. Até tornar-se independente em 1980, o actual Zimbabwe era dos últimos bastiões da continuação do colonialismo em África sob outras formas, razão pela qual os descendentes do Império Monomotapa pegaram em armas.
É verdade que o tempo será sempre, ao lado do trabalho a ser feito por historiadores e outros estudiosos, o melhor instrumento de medição do legado de Robert Mugabe. Mas vale dizer que muito do que de mal se atribui a Mugabe, sobretudo pela metodologia usada para a reforma agrária, pouco ou nada se fala sobre os incumprimentos da então potência colonizadora, que acabaram por “empurrar à parede” a governação no Zimbabwe. Os compromissos para a realização da reforma agrária, assentados nos Acordos de Lancaster House, ficaram por se materializar e cumprir por parte da Grã-Bretanha. Não se pode injustamente imputar todo o estado em que foi deixada a economia zimbabueana à gestão do ex-Presidente Mugabe. O regime de sanções a que esteve submetido o Zimbabwe, seguramente para levar ao fracasso toda a realidade pós reforma agrária, criou dificuldades na gestão do país e no dia-a-dia das famílias. Independentemente dos excessos cometidos e sem qualquer desrespeito às vítimas e descendentes, no geral o ex-Presidente Mugabe cumpriu com algumas das preocupações mais prementes das populações. Até antes de 2002 e, insistimos, embora seja discutível a metodologia usada para a reforma agrária, no Zimbabwe menos de dois por cento da população detinha 90 por cento de todas as terras aráveis. A maioria da população negra, na terra dos seus antepassados, estava na condição de povos sem terra e na expectativa de uma reforma agrária que não saía do papel de 1979.
Mas deixemos que a História se encarregue de julgar ou absolver Robert Mugabe, cujos restos mortais baixam à sepultura nas próximas horas no conhecido Monumento dos Heróis, arredores de Harare. Adeus camarada Mugabe.

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