Opinião

Ciclos eleitorais e o cultivo da paciência

Numa altura em que maior parte do material de votação já se encontra no país, como avançou a Comissão Nacional Eleitoral (CNE), estamos a  encaminhar-nos  irreversivelmente para a realização das quartas eleições da História de Angola. As primeiras eleições no quadro do actual conjuntura política e constitucional, em andamento desde 2010, marcam  uma fase em que o processo eleitoral se torna regular e sem interrupção.

A aprendizagem política feita até agora deve levar-nos a todos a encarar os anos que antecedem as eleições e os subsequentes como produto normal da nossa democracia. O “tudo ou nada” como estratégia política em Angola não pode vingar na medida em que o exercício do poder nunca deve ser visto como um fim sem o qual as pessoas ou partidos não vivem, não fazem política, não exercem o contrapoder. É preciso partir do princípio de que teremos eleições todos os quinquénios, que teremos sempre a possibilidade de renovar a confiança junto de quem governa ou apostar num novo projecto de governação a cada cinco anos. Essa realidade tem como base a crença generalizada  de que a democracia e os processos eleitorais são parte insubstituível do percurso que a nação angolana vai fazer para atingir os fins determinados pela Constituição da República. Os angolanos acreditam que “a construção de uma sociedade livre, justa, democrática, solidária, de paz, igualdade e de progresso social”, passa invariavelmente pela democratização, com o reforço do “rule of Law”.
Acreditamos que todos os projectos políticos apresentados pelos partidos políticos sejam bons, sobretudo quando ajustados à realidade, mas como é fácil de entender o eleitorado escrutina uns poucos e aprova apenas um de cada vez. Saber esperar deve fazer parte da lógica em torno da qual os políticos lutam para alcançar, exercer e manter o poder, facto de que a realidade africana é fértil com exemplos de sucesso. Numerosas figuras políticas de proa no continente, que passaram longos anos na oposição, foram catapultadas para o poder fruto do longo, meticuloso e escrupuloso papel como oposição política nos seus países. O mesmo se pode dizer de entidades que foram poder  durante longo tempo e que por factores ligados aos processos democráticos e eleitorais passaram a vestir a camisola da oposição. É essa visão e espírito político que deve “contagiar” a classe política angolana para que a batalha eleitoral, a do dia 23 de Agosto e as subsequentes, não se transforme em problema. Não se pretende dar lições de política a  ninguém, apenas enfatizar que na colocação dos interesses de Angola acima de quaisquer outros vale a pena participar das eleições com o que chamaríamos aqui de espírito do desportivismo político. Este “fair play” democrático traduz-se no respeito pela  instituição que organiza o pleito, a CNE, a que exerce a arbitragem, o Tribunal Constitucional, os adversários e o eleitorado. A este último, o “patrão”, como alguém lhe chamou,  deve ser atribuída a máxima atenção porque tem o poder para delegar agora, como retirar depois, o seu poder soberano. Pensamos que os políticos angolanos compreendem  bem esta realidade, razão pela qual, quer durante a pré-campanha como ao longo da campanha propriamente dita, todas as baterias vão continuar viradas para o eleitorado.
Em todo o caso, acreditamos que o exercício do jogo político em Angola se encaminha para a compreensão da regularidade dos ciclos eleitorais e o cultivo da paciência.

 

 

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