Opinião

Criação de valores arma contra a corrupção

A luta contra a corrupção deve ser também um combate pela criação de valores morais, defendeu há dias um conhecido escritor africano de Língua Portuguesa, em entrevista ao Jornal de Angola. Nisto, estamos todos de acordo, independentemente de muitos insistirem em olhar apenas e sobretudo pela componente penal como recurso preferencial para debelar este fenómeno social.

Regra geral, a opinião pública parece convergir na ideia básica de que vai ser com medidas judiciais, fundamentalmente penais, que se vai erradicar a corrupção na nossa sociedade. Não carece de estudo o entendimento de que a corrupção, em muitos aspectos e a vários níveis, tende a abarcar uma vertente cultural muito enraizada que precisa de ser invertida com o cultivo de outros valores. Mas não unicamente com medidas que impliquem a detenção e prisão de pessoas envolvidas, na medida em que estas iniciativas servem e desempenham o seu papel, mas a cultura de valores relacionados com as boas práticas, transparência, legalidade, honestidade fazem toda a diferença na inversão do actual estado de coisas.
Temos hoje uma sociedade que devia fazer uma ampla introspecção sobre os meandros em que se estabelecem as relações pessoais e familiares, hoje grande parte delas corroídas pelo exagerado apego aos bens materiais. Grande parte desses contravalores começam a partir da família que, desde muito cedo, consciente ou inconscientemente, incentiva os seus membros no sentido de maximizarem os ganhos materiais nas relações que se estabelecem.
Quando o aclamado escritor defende um combate contra a corrupção que envolva a criação de valores, na verdade, está a estimular apenas o regresso ao papel e intervencionismo que as famílias, em condições normais, sempre tiveram junto dos seus entes, sobretudo os mais novos. É na família onde deve surgir o repúdio e oposição à aquisição de bens que se não justificam pelo trabalho ou esforços suplementares completamente desproporcionais aos ganhos. Quando a ostentação de um estilo de vida que contrasta com os rendimentos não é motivo de preocupação no seio familiar, por mais leis, medidas judiciais e penais que se utilizem, os efeitos se farão sentir na razão inversa dos objectivos.
Urge associar a este mecanismo, o judicial e penal , outros mais duradouros, mas consistentes e mais efectivos porque actuam sobre os costumes. A criação de valores como fortaleza contra a corrupção é um esforço contra todo um estado de coisas em relação as quais a sociedade aprendeu a ser condescendente e a minimizar o seu impacto no funcionamento do Estado.
As situações que envolvem a corrupção combatem-se também e fundamentalmente com medidas que incidam sobre as causas profundas da corrupção, nomeadamente o eventual hábito que leva a “encolhermos os ombros”, dando a entender que a corrupção faz parte dos nossos costumes. Não há dúvidas de que essa possibilidade, mesmo na eventualidade de ser factual entre nós, se deve a valores que se implantaram e ganharam raízes que podem e devem ser agora erradicadas a favor de outros.

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