Opinião

Falsos estudos e enganadoras investigações

Há dias, a sociedade angolana recebeu com muita apreensão a informação, alegadamente derivada de um estudo, que dava conta do arremesso de 100 crianças vivas ao rio, acusadas de feitiçaria.

 A alegada investigação, da autoria do Centro de Estudos e Investigação em População da Universidade Agostinho Neto (CEIPUAN) indica que as ocorrências foram registadas nas províncias de Cabinda, Zaire, Malanje e Bengo. Atendendo à gravidade da informação, o Instituto Nacional da Criança (INAC) contactou imediatamente os gabinetes provinciais da Acção Social, Família, Igualdade e Equidade de Género das províncias afectadas pelo alegado estudo e nada indica que as conclusões do estudo correspondam à realidade.
Segundo o INAC, as delegações provinciais, instadas a apurar o registo dos referidos casos nas províncias citadas, não apenas se manifestaram completamente surpresas com os factos divulgados, como simplesmente não confirmam a veracidade de tais ocorrências nas respectivas províncias. As entidades que, ao nível das províncias mencionadas, acompanham, assistem, aconselham e reportam os acontecimentos que atentam contra a dignidade e direitos das crianças, não deixaram de fazer o seu trabalho.
É verdade que a situação da feitiçaria em que muitas famílias envolvem os mais pequenos é uma realidade, tendo sido igualmente verdade, durante algum tempo, o facto de familiares mais próximos "terem sacrificado" os mais novos com as referidas alegações. E não raras vezes, essas atrocidades foram cometidas com a intervenção de confissões religiosas que, em muitos casos, jogaram um papel instrumental nas acusações de feitiçaria.
Não é menos verdade que as autoridades angolanas, fruto da dimensão que estes casos assumem em determinadas províncias e localidades, fazem o devido acompanhamento que culmina, muitas vezes, na retirada da guarda das crianças visadas nos casos de feitiçaria. Numerosos centros de acolhimento receberam e continuam disponíveis para acolher as crianças acusadas pelos familiares de feiticeiras, uma realidade que faz repensar o papel que as famílias, as autoridades tradicionais e, em última instância, os chamados tribunais tradicionais, devem desempenhar na protecção da criança.
Acreditamos que essa situação, do suposto estudo, revela em muitos aspectos a dimensão e gravidade com que determinadas investigações, desprovidas de qualquer cientificidade e sem qualquer base de sustentação, acabam irresponsavelmente publicadas. Não faz muito tempo que, num país africano de expressão portuguesa, foi tornado público igualmente "um estudo" que alegadamente concluiu que as crianças do referido país consomem mais bebidas alcoólicas do que leite.
Sem colocarmos em causa a investigação científica, em qualquer parte do mundo, muito menos em Angola, somos de opinião que os nossos estudiosos e investigadores continuem a fazer o seu trabalho, certificando-se de que as fontes, as estatísticas, os relatos que recolhem, etc., sejam actuais, verídicos, fiáveis e, se necessário, corroborados por outros estudos. Está de parabéns o INAC pela disponibilidade e abertura para trabalhar com todos os parceiros que desenvolvam acções no domínio da protecção e promoção do bem-estar da criança. Os estudos e investigações não podem confundir-se com meras opiniões, especulações ou relatos infundados, que depois passam a ser denominados de investigação científica.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia