Opinião

Maus exemplos no Parlamento

Analtino dos Santos

Estou sentado em frente ao televisor, aguardando que inicie o acto de abertura do novo ano parlamentar.

Ansioso por ouvir o discurso sobre o Estado da Nação, que o Presidente João Lourenço fará aos angolanos. Se o meu amigo Rui Neves cá estivesse, diria que o mais certo seria chamar-se à cerimónia, o discurso sobre o Estado da República, face ao figurino que temos em uso. A Nação é um outro assunto, bem mais complicado, tais são as assimetrias existentes, diria ele. É o resultado de modelos res-publicanos mais ou menos importados e implementados ao longo dos anos, acrescento eu. Ao meu lado, o Samsung, na sua aplicação WhatsApp, difunde a voz inflamada do mobilizador Dala, um jovem que aparenta ter dinamismo para dar e vender. Parece que fala em nome do dito Movimento Revolucionário, e apela a um acto de protesto, sem precedentes na nossa história de país independente. A garotada quer fazer história.
Sou surpreendido pelas gigantescas proporções que a dita manifestação (legítima na sua essência) pretende alcançar (a rádio por vezes falseia a realidade dos factos), como me surpreende ainda mais – e não apenas hoje –, a ausência do nome de José Eduardo dos Santos, nesses ardentes pronunciamentos. E surpreendo-me porque estou convicto que o auto-proclamado arquitecto da paz, o candidato a Prémio Nobel, o menino bebucho das amantes do belo, é, precisamente, a figura principal do quadro negro que os reclamantes pintam, o grande responsável pela desgraça que se abateu inexoravelmente sobre o povo angolano. Pela sua péssima governação, incapaz de ser igualada, pela irresponsabilidade, pela ausência de controle no exercício da função, e pelo descontrolo final que levou o país ao caos; pela sua cobardia, pela promoção da corrupção e da impunidade, pela traição aos mais elementares direitos de toda uma população. Por todas essas coisas pergunto, mas aonde andam com a cabeça os que tentam apoios a favor deste homem? Voltemos, entretanto, ao que importa agora.
Com, mais ou menos, uma hora de atraso, o Presidente começou a falar e disse o que, no essencial, deveria ser dito. Mas não falou de outras que mereciam ser ditas. Falhou no capítulo do processo autárquico em mão dos parlamentares, foi parco em palavras para a educação e cultura. Deveria ter dado outra ênfase à questão da miséria do povo e do desemprego, levantada diariamente como bandeira pelos críticos do Executivo. Também não gostei da leitura daqueles números compridos, que fazem gaguejar qualquer um entre os milhões e os biliões, quando, com um simples “cerca de”, resolveria a questão. Questão de destreza que se fica a dever a quem cuida desta parte da comunicação. Seriam, na verdade, certos os números apresentados como se chegou a especular? Se não coincidem, é perigoso. No lado económico e social, enaltecidos os esforços que se fazem para recuperar essa área, acabou por convencer. Por isso, parece-me injusta a apresentação do cartão amarelo ao Presidente da República, atitude de que se vangloriou o deputado Adalberto da Costa Júnior, da UNITA. Amarelo? Porquê? Alguma coisa a ver com o raciocínio galo>galinha>ovo>amarelo? No meu entender, amarelos deveriam levar, por exemplo, o próprio Adalberto que é um bom tribuno e até costuma pugnar por postura digna, o seu colega de bancada David Mendes, o homem que mais fala sobre o estafado processo de repatriamento de capitais, e o deputado João Pinto do MPLA, que deveria ser mais comedido nos seus exuberantes e rídiculos gestos de aplauso às palavras do Chefe, para além da barraca proporcionada pelos cochilos visíveis nuns quantos representantes do povo, incapazes de aguentarem o tempo de leitura de tão extenso documento. Resumindo, o acto acabou por ser uma triste lição de deselegância de uns quantos deputados, tanto da oposição como da situação, perante a figura do Chefe de Estado. Enfim, há gente que não tem noção do triste figuraço que faz em público!
E como quando se fala de amarelos, derivamos para o futebol, julgo que o Presidente acabou por ganhar, folgado, este difícil jogo. Ganhou pontos porque, em meu entender, foi muito mau aquele gesto colectivo dos deputados da oposição, traduzido na patética demonstração de despropositada falta de respeito pelo mais alto magistrado da Nação, uma regra que nunca deveria ser dispensada num jogo de tão alto significado! Sabemos todos, e os deputados mais do que ninguém, que a democracia tem os seus limites bem definidos! Deveria o árbitro, ou seja, o presidente da Assembleia Nacional, ter sancionado a mostragem de cartões amarelos (imagens que a TPA, ou a AN, nunca deveria ter ocultado), previamente preparados para o espectáculo mal concebido? Talvez devesse. Se, entretanto, analisarmos com cuidado alguns aspectos deste jogo típico de começo de época, veremos bem as fragilidades das tácticas postas em confronto, e acabamos por concluir o seguinte: a oposição fez uma péssima partida, desempenho que lhe pode custar caro nas contas da classificação final. Quanto ao Presidente, foi sereno a aguentar a afronta, ficando-se naquela de, se se fala muito falou demais, se não se fala disto ou daquilo, é porque não falou. Claro que deveria ter ido mais longe no que ao processo autárquico diz respeito e aí, nitidamente, marcou na própria baliza! Autogolo! Há, contudo, na sua comunicação, uma declaração de confiança e transparência, o que é muito bom para a temporada, e também de um suplemento de força para se atirar às camadas jovens e aos intermediários feitos à pressão. Conotar-se com subserviências a projectos perigosos, muito próximos do falhanço, tristemente usados em sujos jogos políticos e de interesses milionários, não se recomenda a ninguém. É triste verem-se jovens aliados a causas que deixam muito a desejar, com protagonismos dentro e fora da casa das leis, todos eles mal vistos por um eleitorado cada vez mais consciente e que sabe analisar a política indígena, tal como ela é!
Se é pena que o ódio tolde as ideias de certos contestários, é muito mais penoso verificar o quanto a disputa política retira sensatez comportamental a deputados da Nação, que era suposto possuirem lisura, mas que, perante tão desastrada forma de comunicação, se mostram muito carentes dela. E são desastrosamente omissos. Os deputados, tal como a maioria dos contestatários, parecem esquecer-se, por exemplo, de questionar onde e quando nasceu este monstro que nos atormenta e que todos enfrentamos hoje. Basta recordar algumas das questões que normalmente são utilizadas para justificar tomadas de posição: Governo enorme? Gastos supérfluos? Sim. Perfeitamente dispensável. E a máquina poderosa que estava montada? É fácil desmontá-la? Fugir ao FMI? Como? Os governantes são jovens? E depois? Quais são os velhos experientes que querem assumir o desafio? O homem falou da armadilha da dívida. Sabem o que é isso? O que representa? João Lourenço pertence ao antigo regime? Claro que foi seu membro destacado durante anos a fio. E depois? O facto de ter sido torna-o tão responsável quanto José Eduardo dos Santos, o verdadeiro culpado da desgraça do povo angolano? Quando tiverem certezas de mau comportamento de JLo, crucifiquem-no. Enquanto as certezas forem apenas dúvidas, respeitem-no, porque é nosso dever fazê-lo. De onde vieram Fidel Castro, Gorbachev, Lenine, De Gaulle e a grande maioria dos ditos libertadores? Querem vítimas como Lumumba ou Zapata? Não brinquem com a nossa inteligência, rapaziada. Aproveitem este inédito momento em que as forças do bem se manifestam, abandonem a malandragem, unam-se a quem governa com dificuldade, constituam uma sociedade civil forte, credível e ciente dos valores da democracia e da cidadania, longe de oportunistas, sem alimentarem azedumes de origem duvidosa, ajudem, com o vosso saber, a fazer o país, e estaremos então, todos, a pisar o melhor caminho para a felicidade.
Luanda, 15 de Outubro de 2019

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