Opinião

Mobilidade e consumo

Numa altura em que nos encontramos a viver o Estado de Emergência, em que as autoridades esperam das populações um comportamento consentâneo com as exigências do Decreto Presidencial e com o actual contexto, não há dúvidas de que muitas reflexões precisam de ser feitas.

Ponderações essas que tenham que ver com a interpretação, não raras vezes exagerada e acompanhada de excessos por parte de agentes que têm a responsabilidade de impor o cumprimento da lei. Embora o Decreto Presidencial seja claro relativamente à mobilidade humana, estritamente ligada ao necessário, nomeadamente a aquisição de alimentos, água e medicamentos, apenas para falar das populações, não há uma proibição taxativa de todo o mundo ficar em casa. Vivemos numa economia de mercado em que, ao lado das medidas impostas para prevenir a propagação da pandemia do Covid-19, precisamos de acautelar que um dos pressupostos fundamentais dos processos de produção e distribuição de bens e serviços não seja "asfixiado". Falamos do consumo, o elemento vital de qualquer economia de mercado e que para realidades como a nossa, onde "sair à rua é também um pressuposto para a sobrevivência de muitas famílias", é determinante. Na verdade, uma vez "asfixiado" o consumo, por via da limitação da circulação de pessoas, nem sempre devidamente interpretada pelas forças da defesa e segurança, vai acabar por afectar negativamente as grandes superfícies, as empresas e os fornecedores.
Muitos países encontram-se já a fazer contas sobre os níveis de contracção do Produto Interno Bruto, sobre a redução da capacidade de gerar riqueza, sobre o desemprego e, mais importante, a fome que tende a grassar pelos agregados familiares. Na verdade, para muitas realidades, em todo o mundo, a humanidade encontra-se perante um problema que está apenas a começar, facto que, no médio e longo prazos, torna recomendável a adopção de procedimentos e comportamentos ajustados aos contextos. Precisamos de nos focar, e muito bem, naquilo que são as medidas e procedimentos adequados à nossa realidade, independentemente da necessidade de se aprender com o que outros povos e Estados estão a fazer.
Não podemos perder de vista que, mesmo nas grandes cidades e periferias das províncias de Angola, uma parte significativa da população desloca-se para a aquisição de água. Famílias há, entre as mais carenciadas, que ficar completamente encerrado em casa constitui meio passo para o "suicídio colectivo", razão pela qual deve continuar a estar salvaguardado o direito das pessoas circularem para aquisição de bens de primeira necessidade.
Inclusive o encerramento compulsivo de alguns mercados, nos bairros periféricos, embora uma medida que respeitamos, ainda assim vale sempre a pena ponderar sobre as variáveis “custo” e “benefício” que a imposição proporciona às famílias.
Sem "asfixiar" por completo alguns dos pressupostos em que assentam e de que dependem a sobrevivência diária das famílias, o importante é que consigamos cumprir as medidas decretadas pelo Governo, circulando apenas e somente conforme as excepções constantes do Decreto Presidencial.
Embora os aspectos ligados à saúde tenham prioridade absoluta não se pode perder de vista que, mesmo dentro das limitações impostas pela actual conjuntura, a vida deve continuar e a economia não pode morrer. Precisamos de assumir que, independentemente da situação actual, é vital que a economia, funcionando nos moldes em que funciona por força do Covid-19, não morra sob pena de nem sobrarem recursos para preservar a saúde.

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