Opinião

O processo de adesão ao Acordo Ortográfico

“O Estado valoriza e promove o estudo, o ensino e a utilização das demais línguas de Angola, bem como das principais línguas de comunicação internacional", assim dispõe a Constituição da República no seu número 2, do artigo 19º, sobre as línguas.

A adequação de especificidades do português escrito e falado em Angola, decorrente da influência das línguas nacionais, deve ser defendida e preservada antes que a ratificação do Acordo Ortográfico, de forma apressada e aparentemente incondicional como provavelmente muitos esperam, torne irreversíveis situações que se pretende evitar. Na verdade, ao longo de várias décadas, numerosos vocábulos de influência linguística africana acabaram indevida e desnecessariamente aportuguesados, chegando, em muitos casos, a provocar formas curiosas na diferença entre a pronúncia e a escrita.
Contrariamente à eventual percepção de que recusa, oposição ou resistência, a República de Angola apenas pretende ver salvaguardados os aspectos importantes da língua, tal como falada e escrita no país. Ratificar o acordo ortográfico sem assegurar que, por exemplo, a pronúncia e grafia "Ngola" se mantenha na língua portuguesa tal como ela sempre existiu na língua nacional kimbundu é um retrocesso, completamente evitável. Não se pode aceitar que as expressões derivadas das línguas nacionais, particularmente os nomes próprios com a grafia bantu, estejam de fora ou, na pior das hipóteses, conheçam uma grafia e pronúncia diferentes da original.
Em tempos, um articulista defendeu, erradamente, que se Angola mantiver a língua portuguesa fora dos marcos do acordo ortográfico, vocábulos como o nome da moeda estarão errados, porque, alegadamente no formato anterior ao acordo, determinadas letras não eram previstas ou aceites. Nada mais falso na medida em que Kwanza, ao lado de milhares de vocábulos nas línguas nacionais angolanas, está para a língua portuguesa o que os outros vocábulos nas línguas estrangeiras estão para o idioma de Camões. E devem, com todo o respeito e dignidade, manter a sua pronúncia e grafia, em vez da tentativa de “aportuguesamento”.
Angola não pretende inviabilizar a vigência dos compromissos assumidos e está apenas a fazer o "trabalho de casa" previsto no processo de adesão ao acordo ortográfico. E os acertos que se pretende estão em curso, com trabalhos relacionados com a elaboração do vocabulário nacional, na terminologia da administração pública, entre outros passos.
A reapreciação da adesão do país ao acordo ortográfico, por via da ratificação, foi reafirmada há dias pelo Executivo e, como frisou o secretário de Estado da Cultura, Aguinaldo Cristóvão, está dependente dos passos mencionados acima. É preciso que se dê tempo para que as autoridades angolanas trabalhem sem pressão, tal como têm estado a fazer durante esse tempo, sendo o horizonte temporal para a ratificação um aspecto a relevar, mas sem condicionar a adequação de um conjunto de especificidades que Angola pretende ver salvaguardados: a pronúncia e a grafia do "linguajar angolano", imbuídos das dinâmicas sociais e culturais, que enriquecem a forma como se fala e se escreve em português, em Angola.

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