Opinião

O Testemunho

O ano de 2018 está aí e com ele um conjunto de desafios que cada um coloca a si mesmo no já tradicional balanço do ano que findou e do que agora começa. Mais que os desejos individuais, há a sua soma que os torna num desafio do país, no exacto momento que o virar de página do calendário aponta para os primeiros cem dias da actual governação, eleita democraticamente em Agosto de 2017, marcando o início de um novo ciclo político em Angola.

A mudança foi o facto do ano que acabou e que fez renascer a esperança do  povo, que hoje encara o futuro com mais optimismo, mesmo sabendo que o que vem pela frente, já neste 2018, não será fácil. Como bem lembrou o Vice-Presidente da República, estamos numa prova de estafeta e quem recebe o testemunho não pode parar. As analogias do desporto com a política não são de hoje e, por isso, vale lembrar que as corridas de estafeta são, por norma, de velocidade, pelo que há que acelerar as reformas porque o mandato é de apenas cinco anos, que passam num instante. As estafetas não são como as maratonas, como alguns pensam e defendem, onde as realizações vão ficando nas gavetas do esquecimento, sem responsabilização pelos incumprimentos e pelas colossais derrapagens que originam muitos dos actuais endinheirados.
Nas provas de estafeta, às vezes, quem entrega o testemunho vem atrasado e quem recebe tem de acelerar para recuperar os lugares perdidos. Ao enfatizar a importância de José Eduardo dos Santos, enquanto presidente do MPLA, Bornito de Sousa, mais não fez que dissipar dúvidas sobre as relações entre o Governo e o partido que o apoia. Tem havido ao longo deste período, em alguns sectores, certa especulação em torno de uma intervenção silenciosa do Presidente do MPLA sobre a forma como algumas decisões que o actual inquilino do Palácio da Cidade Alta tem tomado, e que de certa forma surpreenderam o cidadão comum, dando a João Lourenço uma confortável almofada de popularidade.
Não há aqui lugar para o rufar de tambores nem para a contagem de espingardas, porque a “guerra” interna  pode não passar de um desejo externo. José Eduardo dos Santos e João Lourenço querem que o País progrida, e não será uma ou outra divergência pontual que irá alterar um estado de confiança que se vai vivendo em Angola nestes tempos que são de esperança.
É normal que nem todos alinhem com a velocidade das mudanças, mas isso não pode significar que se transformem em forças de bloqueio porque, em última instância, perdem todos, os angolanos e o próprio partido no poder.
Até a oposição e políticos desavindos convergem estar-se a viver um novo tempo, só possível pelo estado de graça que  João Lourenço tem vindo a conquistar ao anunciar medidas para combater velhas práticas, acabar com alguns monopólios e oligopólios que se instalaram e que só beneficiavam selectos privilegiados. Hoje mesmo, a Televisão Pública de Angola (TPA) reassume o controlo do seu canal 2, depois de anos de gestão privada em que, como em muitas parcerias semelhantes, os lucros iam para o privado e os prejuízos para o público, que somos todos nós.
Como o próprio Presidente da República reconhece três meses não é tempo para balanços e tantos elogios, mas a verdade é que nesse curto espaço a esperança está a ser resgatada não só entre os angolanos mas também do estrangeiro, onde a percepção de mudança tem despertado interesses bloqueados pela má reputação e práticas de um passado recente.
São cada vez mais os investidores que voltam a olhar para Angola e isso é fundamental para o crescimento e desenvolvimento já que  não vai ser o Estado a garantir os milhões de emprego que os angolanos, sobretudo jovens, tanto precisam com a transferência de know how e a melhoria do ensino a todos os níveis. Está aberto um melhor ambiente de negócios o que facilita o acesso aos mercados financeiros internacionais em condições mais competitivas.
A supressão de vistos de entrada e a facilitação na sua atribuição são peças importantes dessa estratégia de captação de investidores, dos pequenos aos médios, às grandes multinacionais para que o objectivo da diversificação da economia seja mais efectivo.
Foi já anunciado que a partir deste mês a cruzada  contra a impunidade vai conhecer novos capítulos, a começar pela anunciada moratória para as fortunas angolanas no exterior regressarem livremente ao país, sob pena de depois ou serem repatriadas coercivamente ou confiscadas pelos países-cofre. Tratam-se de acções visando a moralização da sociedade e melhoria da vida dos cidadãos para que quando se chegar ao final de 2018 não se fiquem pelos lugares comuns dos balanços positivos mas que se sinta, efectivamente, que a vida mudou para todos.
Nesse esforço, é fundamental a participação de todos e cada um, incluindo os quadros na diáspora, muitas vezes esquecidos, mas que podem, também eles, ajudar nas várias áreas do saber, do mesmo modo que a indispensável imigração legal, não para abrir buracos nas vias mas de qualidade técnica e para transferência de conhecimento, sem essa de vir roubar os lugares dos nacionais.
 2018 vai ser um ano de esperanças renovadas mas de dificuldades para atenuar os desequilíbrios macro-económicos, diminuir o elevado endividamento e dar o real valor à moeda nacional que não pode seguir o curso proteccionista de valorização administrativa, que apenas serve para que meia dúzia de privilegiados compre divisas a um câmbio barato para depois vender produtos a preços especulativos. Politicamente, 2018 deverá ser também o ano da retirada da vida política activa de José Eduardo dos Santos, caso se concretize o seu desejo anunciado ao país e que já se iniciou com a não recandidatura a Presidente da República.
O testemunho está agora noutras mãos e há que acelerar porque o povo tem pressa e as soluções para os problemas não podem esperar.

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