Opinião

Vamos longe com pequenas iniciativas

A atribuição de micro crédito às mulheres que se dedicam ao processamento de pescado na comuna dos Ramiros, que decorreu ontem, numa iniciativa do Banco de Comércio e Indústria (BCI), constitui um passo importante a todos os títulos.

Vivemos um período menos bom em termos económicos e financeiros, fruto da realidade nacional e internacional sobejamente conhecida, mas que ainda assim não demove instituições bancárias de abraçarem reptos. Diz-se que "onde há dinheiro, há risco", facto que em sentido oposto pressupõe a ideia de que haverá sempre algum risco ali onde o dinheiro circular. Logo, faz todo o sentido apostar, calculados os riscos, em actividades cuja dimensão económica e comercial tem o condão de fazer crescer o país a todos os níveis.
Contrariamente à ideia de que o micro crédito tem uma reduzida margem de realização por parte de quem o recebe, na verdade, temos de aprender que é com pequenas iniciativas que o país cresce. E não há dúvidas de que são os micro projectos que, além de alavancarem a economia e o comércio, têm o potencial inegável de efectivar o mais importante, retirar famílias inteiras do limiar da pobreza extrema.
No fundo, trata-se de uma espécie de desafio auto-imposto pelo BCI que, ao virar aos olhos para as comunidades piscatórias da referida localidade,  pode servir de catalisador para outras iniciativas similares.
Para as diligências que visam "dar anzol em vez de peixe", as instituições bancárias, as únicas com poder de disponibilizar crédito aos operadores económicos e comerciais, devem estar na linha da frente. No nosso mercado financeiro, a banca continua a desempenhar um papel quase insubstituível. Não temos muitas alternativas quando se trata de proporcionar valores sob crédito, razão pela qual os bancos devem continuar a jogar esse papel.
É fundamental que as pessoas, associadas ou não em cooperativas, sejam igualmente capazes de, com o micro crédito recebido, gerar rendimento para cumprirem com uma série de compromissos. Afinal, o dinheiro de micro crédito concedido, não raras vezes com algum esforço por parte das instituições bancárias, não é disponibilizado a fundo perdido. Embora seja papel das instituições bancárias do país encorajarem as famílias e as pessoas singulares a aderirem ao micro crédito, não há dúvidas de que o acesso deve ser preferencialmente precedido por um conjunto de condições. Mais do que concorrer para a obtenção de um micro crédito, é preciso que as candidatas e os candidatos reúnam os requisitos e condições impostos pelas instituições, independentemente da natureza bonificada ou não do crédito. 
Com o repto do BCI, junto das mulheres que trabalham no processamento de pescado, é fundamental que outras instituições bancárias, com possibilidades de concessão de crédito, arrisquem também junto de outras esferas da vida económica do país. É verdade que muitas vezes são as instituições bancárias que se queixam da falta de projectos viáveis e que, muitas vezes, não recebem propostas ajustadas à realidade e comercialmente realizáveis. Por isso, vale a pena instarmos igualmente aos operadores económicos e aos pequenos empreendedores, entre outros, a levarem a sério a ideia de que eles também podem continuar "a desafiar" as instituições bancárias. É bom que o exemplo do BCI sirva para que as instituições bancárias não recorram permanentemente ao léxico da crise. Mas que, dentro da sua margem de manobra, consigam contorná-la em nome da diversificação económica, da luta para reduzirmos a pobreza, a fome e o desemprego e aprendermos todos que vamos longe com pequenas iniciativas.

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