Opinião

À espera do golpe no Brasil

Muito ou o essencial já foi dito sobre o golpe constitucional ou inconstitucional – não conheço em detalhe a Constituição brasileira – que afastou Dilma Rousseff do poder. A verdade nua e crua é que um grupo de presumíveis corruptos indiciados pela Justiça brasileira (alguns condenados) se lançou numa aventura contra outro grupo do mesmo jaez. Pelo meio a Presidente eleita Dilma Rousseff que por entre os seus pecados parece não contar o da corrupção.

Para além de todos os riscos que estas situações acarretam ao nível político, económico e financeiro, acrescenta-se a instabilidade social criada por uma situação. Os políticos manipularam o eleitorado descontente em favor dos seus intentos e hoje temos de lidar com um gigante, em todos os sentidos, dividido, cujo tecido social tem sido inexcrupulosamente destroçado por oportunistas políticos hoje mais conhecidos pela corrupção ou seu indiciamento em praticas menos lícitas, quando não mesmo ilícitas.
Lula da Silva e o seu PT tiraram cerca de cinco milhões de brasileiros da pobreza, criaram uma nova ala na classe média, aumentaram o poder de compra e as expectativas de desenvolvimento do país. Veio a crise de 2008 que graças a essa classe média alargada levou mais tempo até se fazer sentir no Brasil. Quando se fez sentir não houve o menor escrúpulo em atacar Lula e Dilma, neste caso mais Dilma Rousseff que, de facto, foi manifestamente infeliz na gestão da crise financeira. No meio dessa contestação e face às necessidades crescentes de infra-estruturas de saúde e educação do país, a Presidente suspensa abraçou dois projectos megalómanos que beneficiaram muitas empresas sem contudo distribuir riqueza: o Mundial de Futebol e os Jogos Olímpicos.
Os políticos envolvidos neste golpe criaram as condições objectivas para um golpe militar e nas ruas há quem fale nisso, sobretudo porque já não são muitos os que lembram os tempos negros da ditadura militar. Esquecem que colocaram já o Brasil – visto como um país desenvolvido e com peso na cena internacional – ao nível de um daqueles países latino-americanos onde impera a Lei Marcial. Para já,os Jogos Olímpicos, que não terão a receita esperada, como a actividade turística, permitem aos políticos conscientes um compasso de espera que deveriam aproveitar para recolocar a legalidade e negociar um pacto de regime que ajudasse à saída da crise. Um velho ditado da língua portuguesa diz que “quanto maior a nau maior a tormenta”. O Brasil é uma nau muito grande.
Se no final deste entre-acto não surgirem soluções, ninguém se admira que os militares decidam intervir. Se o fizerem ninguém sabe por quanto tempo nem como. Isso é de evitar a todo o custo porque nem os golpistas civis escapariam à Justiça Militar. Há que manter o estatuto do Brasil, ou melhor, há que recuperar o estatuto que o Brasil havia conquistado nas últimas décadas.
Como é evidente, estou do lado de Dilma Rousseff, apesar de não ter  por ela qualquer simpatia. Acontece que de tudo quanto li, ouvi e vi, não encontrei qualquer acusação séria de corrupção, de vilania. Houve de facto manobras contabilísticas para disfarçar o défice, e daí? Será que não se recordam já dos tempos em que os EUA (até com Ronald Reagan) diferiam o pagamento de Dezembro aos funcionários públicos para o primeiro dia do ano seguinte e com isso aliviavam o défice do ano findo? Alguma vez foi crime? Mais ainda crime de responsabilidade, na terminologia brasileira?
Sejamos sérios. O Brasil é grande demais para ser palco de brincadeiras. De facto, aquele Congresso necessita de uma boa lavagem a jacto e algumas empresas uma boa desinfecção. Isso não implica necessariamente uma intervenção militar. Exige uma noção de patriotismo e de dedicação à coisa pública que uma considerável parte dos políticos brasileiros parece carecer. Apesar do meu apoio a Dilma, pelo menos quanto às acusações que vi, creio sinceramente que os brasileiros podem confiar ou desconfiar menos dos que votaram contra a sua destituição. E não podem querer para ontem aquilo que economias desenvolvidas só conseguirão daqui a uns bons dez anos.
Ou estou totalmente enganado, o que também é possível. Considerando as declarações do ministro da Defesa que, ainda Dilma não havia sido afastada, e procurou tranquilizar o mundo recusando qualquer hipótese  de intervenção das Forças Armadas e soube colocar e definir bem o campo em que evolui a actual disputa entre os políticos do país: o da ética. Reconheceu, também, que o país tem mecanismos e instituições com competência para resolver a actual crise.

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