Opinião

A situação económica e social que abana a Venezuela

Benjamim Formigo |

Hugo Chávez tomou conta de um país onde sobrava o petróleo, a miséria e a falta de uma política de desenvolvimento. O carisma do “Comandante” colmatava, porém, a falta de uma estratégia económica usando os rendimentos do petróleo para comprar tudo o que a Venezuela não produzia.

Durante uns anos, resultou. Tal como no Brasil, surgiu uma classe média, que, como todas as classes médias, se revoltam quando lhes “vão ao bolso”. Com a deterioração da situação económica, o excesso das importações e a ausência quase total de produção nacional levou “El Comandante” a introduzir medidas que se tornaram cada vez mais impopulares. Mas era “El Comandante”. Hugo Chávez procurava transferir para o seu delfim o crédito político que ainda lhe restava e que caía aceleradamente dia a dia.
Com as enormes receitas petrolíferas, o crude acima dos 100 dólares o barril, Chávez não usou uma parte dessa receita para fomentar o desenvolvimento do sector não petrolífero e preparar o país para um tempo de “vacas magras” em que, convenhamos, poucos produtores acreditavam ou esperavam, sobretudo com a rapidez que se veio a verificar.
Conta um diplomata que participou numa das cimeiras latino-americanas que, numa delas, o então Presidente Lula da Silva – cujo país era um dos maiores beneficiários da exportação de bens para a Venezuela – aconselhou Chávez a reduzir a dependência do país das importações e a abrir as portas a empresas venezuelanas que produzissem uma parte do que importavam, mesmo que isso não fosse aparentemente nos melhores interesses do Brasil. Hugo Chávez teria concordado com Lula, prontificando-se a promover a criação de empresas estatais. O Presidente brasileiro chamou a sua atenção para o facto de não poder depender do Estado para tudo e da necessidade de fomentar, encorajar, a iniciativa privada. Ao que parece, “El Comandante” teria recusado em absoluto.
E assim evoluiu a economia venezuelana dependente do financiamento de um Estado que, por sua vez, dependia financeiramente de factores externos e principalmente das receitas petrolíferas. A partir de certa altura, após a crise de 2008, o crude começou a cair. O Brasil, pela sua diversificação económica, só há uns dois anos começou a sentir a crise e ainda manteve o crédito à Venezuela.
Sem produção própria, desleixando o sector primário, os bens importados começaram a faltar, em especial depois de Nicolas Maduro subir ao poder. Maduro caiu sobre a classe média para financiar o Estado e a sua política económica estatal que, por seu turno, também não investia em sectores estratégicos. A comida falta nas prateleiras dos mercados, os preços tornam-se proibitivos. A agravar uma crise energética que não pode ser apenas atribuída à seca mas à incapacidade de criar um plano energético nacional menos dependente dos derivados do petróleo.
As manifestações sucedem-se em Caracas e outras cidades venezuelanas. Lideradas por uma classe meia sufocada, um campesinato quase inexistente e um operariado mínimo. Maduro manda os resultados eleitorais às urtigas, contorna o Parlamento e tenta governar por decreto. Uma solução que não parece muito avisada, sobretudo quando o país não mostra qualquer sinal de recuperação, perde os seus aliados regionais, que assobiam para o ar enquanto Washington coloca toda a pressão sobre Maduro.
Uma intervenção do FMI com Maduro só poderia ser produtiva se o Presidente assumisse que existem outros caminhos – e de facto o FMI não é o melhor. Imaginem ainda mais austeridade na Venezuela! O que deixa poucas soluções: Nicolás Maduro aceita o referendo que a oposição pretende convocar e passa alguma da responsabilidade para a oposiçãoenquanto espera pelas presidenciais, onde dificilmente não será derrotado deixando a batata quente para outro– ou pode muito bem ter em mãos uma revolta popular, bem pior do que as “manifs” dos últimos meses. A Venezuela não aguenta muito mais a presente situação.

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