Opinião

A versão turca da democracia

Benjamim Formigo |

O Presidente turco Recep Erdogan está de facto a destruir o sistema democrático conseguido ao longo de décadas pelo povo turco que, inclusive, o elegeu.

A sua legitimidade democrática só poderia ser posta em causa em causa por eleições livres e justas. Mas considerar a Turquia de Erdogan uma democracia desde o último sufrágio passou a ser um tanto forçado. Desde a sua subida ao poder que os clérigos têm assumido maiores poderes e o país, que se orgulhava de ser uma república laica, começou a sentir na legislação em pendor religioso que levou a manifestações violentas e ultimamente, após a eleição de Erdogan como Presidente, ao encerramento de jornais de oposição, perseguição de jornalistas e oposicionistas.
A posição de Erdogan tem vindo a tornar-se cada vez mais autocrática desde as manifestações de 2013 contra a construção de edifícios no Parque Gezi, em Istambul, e que foram violentamente reprimidas. Em simultâneo, várias acusações de corrupção grassaram no regime, acompanhadas por semanas de manifestações, em especial em Istambul, no Parque Gezi, que se tornou um símbolo de  resistência.
Acreditar num golpe de Estado espontâneo, planeado, calculado, a um fim de semana – quando os efectivos militares estão reduzidos, de folga – não é fácil. Como não é fácil acreditar que dezenas de milhares de detenções, militares e civis, exoneração de professores, reitores universitários, milhares de juízes, intelectuais e outros possam ser executadas com base nas investigações do alegado golpe. Pelo contrário, tudo aponta para a existência dessa lista antes de desencadeada a movimentação militar. Sob um prisma descrente ou pelo menos céptico e sem cair em teorias da conspiração, o Governo, ou o Poder sabia, suspeitava, receava que, perante os acontecimentos dos últimos meses, havia ou poderia haver descontentamento dentro das Foças Armadas, bem como nos sectores intelectuais e na própria administração pública, designadamente entre a magistratura judicial. Esta purga só encontra comparação quando os americanos e os seus aliados, depois de derrubarem Saddam Hussein, expurgaram os membros do Partido Baath, no poder.
Além disso, desde o início da guerra na Síria, a fronteira turca era um passador para os combatentes do regime de Assad. Ancara afirmava-se ao lado da OTAN no combate ao autoproclamado “estado islâmico”, todavia as suas tropas nada faziam para o combater, nem sequer para proteger os que se refugiavam junto da sua fronteira, havendo mesmo relatos de que o contrabando de petróleo passava por território turco, até a Rússia entrar no conflito e sua aviação interceptar os comboios de camiões cisternas que contrabandeavam o petróleo. Mais tarde, as tropas turcas à ordem do Presidente passaram a atacar milícias curdas que combatiam ao lado da oposição a Assad, mas essencialmente eram extremamente eficientes na guerra contra o “estado islâmico”. Erdogan procurou arrastar a OTAN para um confronto com a Rússia, chegando a dar ordens para abater um “Sukhoi” que teria atravessado uma estreita faixa de uns 15 a 18 quilómetros  do seu espaço aéreo, sem, contudo, aprofundar essa passagem. As justificações foram demasiado confusas até na OTAN, onde a Turquia foi pedir apoio da Aliança ao abrigo do Tratado que prevê que o ataque contra um Estado é-o contra todos. Ninguém fez mais do que o indispensável para não virar as costas a um aliado. Vladimir Putin teve o bom senso de advertir Ancara sem, contudo, ir além disso.
No que respeita aos acontecimentos recentes, não deixa de ser curioso que Erdogan tenha mandado prender o general comandante da base aérea de Incirlik, usada pelos EUA durante a Guerra Fria e ultimamente nos ataques ao “estado islâmico”. Ora, não é crível que esse general pudesse ser um renegado, ou se o era, era um homem que tinha de ter a confiança do Pentágono, já que a base está listada como um dos locais onde os EUA têm estacionadas armas nucleares tácticas (pelo menos). Talvez por isso haja no Governo turco quem acuse ou sugira, mais ou menos discretamente, que os EUA tenham estado envolvidos no alegado golpe.
A Turquia, com o segundo maior exército da OTAN, tem usado e abusado da sua posição estratégica, aproveitando a instabilidade grega, desde o golpe dos coronéis, para procurar fazer esquecer que a Grécia também é um país da OTAN e que tem uma posição igualmente estratégica. Daí se explica a ameaça turca, citada pelo “The Economist”, de que o país viraria as costas ao Ocidente se os EUA não extraditassem Muhammed Fethullah Gülen, um teólogo turco, influente erudito islâmico que condena o terrorismo e se auto-exilou nos EUA.
Erdogan tem-se mostrado incapaz de unir um país tão diverso como a Turquia, as fracturas acentuaram-se desde a sua eleição, as conversações com os curdos e todos os partidos curdos identificados com o PKKforam suspensas. O PKK, o único que tinha uma guerra de libertação do Curdistão, suspendeu o combate enquanto duraram as negociações. O Presidente curdo foi bem claro na quarta-feira, dizendo que iria deixar de cumprir os compromissos que assinou com a União Europeia, depois de ter sido advertido por líderes europeus sobre a reintrodução da pena de morte. Um tema que surgiu em manifestações orquestradas com a populaça a apelar à pena de morte contra os detidos por alegada participação num golpe e Erdogan a responder: “somos uma democracia, o povo pede e nós concedemos”.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia