Opinião

As confusões de Donald Trump

Benjamim Formigo |

O pronunciamento, ou seria discurso, de Donald Trump sobre a política externa se ganhasse as eleições, deixaram diplomatas, jornalistas e observadores ainda mais confusos.

Para começar, parece indiscutível das últimas declarações do putativo candidato republicano que quer devolver aos Estados Unidos a grandeza, que como diz e bem Hillary Clinton, nunca deixaram de ter. Donald Trump encara os seus aliados em geral, foi ele que o afirmou por outras palavras, como um bando que pretende viver sob a protecção dos Estados Unidos, o que é verdade, e não pagar por isso, o que já é debatível. As alianças militares dos EUA com os seus aliados europeus e asiáticos ou no Pacífico são de mútuo interesse. É um facto que é Washington quem paga a maior parte da factura e isso mesmo disse-o Barack Obama quando há dias decidiu “puxar as orelhas” aos europeus. Mas também é um facto que quer a Europa quer a Ásia–Pacífico são campos de batalha avançados dos Estados Unidos. Se pretendem a protecção dos EUA, têm de a pagar, em dinheiro ou em géneros. Não vale a pena perder mais tempo com este assunto. Donald Trump parece ignorar, ou ignora mesmo, que essas alianças militares visam, em primeiro lugar, proteger as rotas marítimas comerciais e garantir, em caso de confronto, as linhas de abastecimento.
Como se da negociação de imóveis se tratasse, o putativo candidato embrenhou-se numa tese de trocas que deixou os observadores confusos. A China, ao desenvolver as suas ilhas artificiais, é uma ameaça ao comércio americano e os EUA, garante Trump, imporá limitações comerciais. Tudo isto, como se Pequim não tivesse à disposição os meios financeiros para retaliar, deixando os EUA em maus lençóis. Para já não falar no défice comercial dos EUA com a China.
Mas ao mesmo tempo que faz estas afirmações, Trump também acrescenta ser seu objectivo dialogar e melhorar as relações com Pequim e Moscovo. Com Moscovo quer cooperar na luta contra o terrorismo global. Moscovo manifesta simpatia. Isso legitimaria a sua presença na Síria, combatendo ao mesmo tempo o autoproclamado “Estado Islâmico” e apoiaria o seu aliado Assad.
Por um lado, Donald Trump afirma que há armas nucleares a mais, mas aceita que o Japão e a Coreia do Sul fabriquem o seu próprio arsenal em defesa contra a Coreia do Norte e, claro, a China.
Ainda no Médio Oriente, de manhã Trump começa por dizer que não se quer meter no assunto, mas à tarde o “lobby” israelita explica-lhe o ponto de vista tradicional americano e Donald Trump passa a defender dois Estados, desde que a Palestina reconheça o Estado de Israel. O potencial nuclear iraniano é inaceitável e foi o pior acordo de Obama – sustenta Trump, mas nada diz sobre os pequenos arsenais do Paquistão e Índia, perigosos se cai em nas mãos de grupos terroristas ou se desencadeiam um conflito regional.
Para Trump, os grupos muçulmanos devem ser banidos dos EUA e um muro a separar a fronteira com o México ser erguido. Estas afirmações feitas durante a campanha foram suavizadas quase a ponto de passarem despercebidas. Donald Trump cheira finalmente o poder, com os seus rivais republicanos em má posição para disputarem a sua nomeação.
Trump quer ser Presidente imprevisível. Tão imprevisível que não consegue ser olhado sem reservas pelos seus aliados e por muitos americanos que mesmo assim irão votar no homem que deita cá para fora o que sente, mesmo que isso vá contra a tradição política republicana.
As sondagens publicadas desde o início deste mês mostram uma aproximação crescente entre Hillary Clinton e Donald Trump. Os resultados ponderados de Junho de 2015 davam a Hillary 51,7 por cento das intenções de voto, contra 33,3 por cento para Trump. A 27 de Abril deste ano, Clinton não passava dos 45,9 por cento de intenções de voto, contra 37,8 por cento de votos para Trump, embora todas as sondagens realizadas desde o início de Abril dêem uma vantagem a Hillary. Uma vitória à segunda volta pode reflectir os resultados da primeira, por não haver mais candidatos e muito depende agora do vice que Hillary vier a escolher. Bernie Sanders  seria uma boa opção pois a sua popularidade é transversal a todos os estratos etários e sociais, mas não será uma opção evidente, embora os candidatos democratas tenham evitado hostilizar-se. Um mau vice para Hillary poderia mobilizar eleitorado para Donald Trump e tornar a vitória à primeira volta menos impossível.

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