Opinião

Recusa do nuclear de Trump

Benjamim Formigo

A menos de seis meses das eleições para a Presidência dos Estados Unidos, Donald Trump desenha-se como um sério candidato. Desapareceu das sondagens ponderadas o homenzinho de cabelo ridículo e ar nada presidenciável para em ser lugar surgir o mesmo indivíduo, sem tirar nem por, mas que está apenas 1,5 por cento atrás da putativa candidata democrata Hillary Clinton.

O risco de virmos a ter o louro desbocado com a mala e os códigos nucleares à mão está a tornar-se uma realidade pouco reconfortante.
Claro que até ao lavar dos cestos é vindima. As primárias ainda não terminaram para os democratas mas Donald Trump está a correr já noutra pista e noutro campeonato. Ao contrário das expectativas, Bernie Sanders, o respeitado senador de Vermont, não se retirou da corrida democrata apesar das possibilidades ínfimas de ganhar a Hillary. Ao contrário também das expectativas, os candidatos democratas, embora em versão “soft”, regressaram às críticas mutuas. O Partido Republicano, muito a contragosto, engole uma pastilha amarga chamada Trump, vendo os seus candidatos, quer o mais clássico e oficial Marco Rubio quer o mais extremista do “Tea Party”, o texano Ted Cruz, abandonarem a corrida, deixando um “outsider”, Donald Trump, avançar como um “bulldozer” sobre os seus parceiros de partido, que literalmente chegou a insultar, e os democratas, em especial a senhora Clinton e o senador Sanders.
Mas a diletância de Trump não se ficou pelos seus adversários políticos. Lançou-se num discurso xenófobo como não há memoria, defendendo desde a construção de um muro ao longo da fronteira com o México, atacando a comunidade hispânica, pretendendo a expulsão dos muçulmanos, o corte com o Irão, as sancões à China, o desentendimento com os aliados europeus da OTAN. Em política externa, o homem não deixou pedra sobre pedra, causando uma desconfiança ímpar face a uma Administração Trump.
Contudo, o mundo foi olhando com uma certa displicência o discurso de um homem que não chegaria a candidato. Pois bem, chegou! Chegou e é para tomar a sério. Com as desistências dos candidatos “aceitáveis” que perdiam terreno dia a dia graças a um discurso contra o establishment de Washington, contra um Presidente que tirou o país que os seus bancos causaram em 2008, e com que o mundo ainda se debate, contra toda a lógica que faria de Obama um Presidente aceitável na gestão da economia, as classes menos educadas americanas preferem Trump e o seu discurso à dissertação mais sofisticada de Hillary Clinton e a sua experiencia política. Ao chegar a esta situação os dirigentes republicanos perceberam que uma vitória democrata seria, ou será, uma travessia do deserto para o GOP e engolem sapos vivos para apoiarem Donald Trump unindo em torno dele o partido.
Do lado democrata não existem muitas duvidas que Hillary será a candidata. Mas o Congresso Democrata no final do mês, em Filadélfia, vai deixar marcas e porventura impedir o “ticket” de sonho: Hillary/Sanders, que uniria o partido mas que se afigura cada vez mais impossível.
Discretamente Barak Obama entra na corrida apoiando a sua antiga secretária de Estado Hillary Clinton. A tempo? Será útil a Clinton ter o apoio aberto de um Presidente irracionalmente impopular? Para já, na velha tradição anglo-saxónica, Hillary tem o apoio aberto dos influentes “Washington Post” e “New York Times”, tem outro apoio de peso que se tem mantido na reserva: o seu marido Bill Clinton, um dos Presidentes que marcou os EUA económica e politicamente pela positiva nas últimas décadas. Obama não cumpriu uma boa parte das promessas que fez, mas conseguiu algumas importantes vitórias na luta contra o terrorismo. Contudo, envolveu-se  mais no Iraque e na Líbia. Uma vitória iraquiana em Falluja, a expulsão do autoproclamado “estado islâmico” daquele importante nó rodoviário e a abertura da estrada para Amã poderiam ter um peso importante a favor de Obama, da sua candidata Hillary Clinton e ajudar decisivamente os brinquedos nucleares da proximidade de Donald Trump. Além de trazer um pouco mais de estabilidade, em falta há muito tempo, mesmo que Hillary Clinton não seja a campeã do pacifismo.

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