Opinião

Trump e o pesadelo

Benjamim Formigo |

Convenções partidárias terminadas, começa finalmente a corrida à Casa Branca. Os Estados Unidos irão viver uma nova fase da já longa corrida eleitoral que terminará a 11 de Novembro próximo com a reunião do Colégio Eleitoral que irá, Estado a Estado, escolher o seu candidato.

No final da contagem é necessário que um dos candidatos atinja a barreira dos 270 votos para ganhar a eleição. Os Estados têm números diferentes de delegados, ou seja, de votos eleitorais. Daí que as sondagens nacionais, pelo menos as que são calculadas em função da votação dos Estados, e a maioria é, não sejam um indicador fiável do resultado.
De momento, tendo em conta as sete últimas sondagens, a última após a Convenção Democrata, Hillary Clinton tem uns meros dois pontos de vantagem relativamente a Trump. Em contrapartida, 14 por cento dos eleitores ainda não tomaram uma decisão sobre o partido em quem vão votar em Novembro, o sufrágio do qual sai a composição do Colégio Eleitoral.
A subida substancial de Trump após a Convenção Republicana esteve em linha com o que habitualmente ocorre. Uma semana depois, e logo após a Convenção Democrata, Hillary ultrapassava o multibilionário. Donald Trump esteve só na Convenção e não conseguiu mais do que o habitual, garantiu os fiéis e apelou aos grupos xenófobos, racistas, isolacionistas e outros. Nem mesmo o GOP (Great Old Party, cognome dos republicanos) o apoiou. Ted Cruz, enviado com esse objectivo, obteve luz verde da direcção do partido para discursar sem apoiar Trump. Em contrapartida, Hillary Clinton teve o apoio de Bernie Sanders, que teve algumas dificuldades em convencer os seus apoiantes, essencial não só para a eleição de Hillary mas também para manter o partido unido – e conseguiu-o. Não foram indiferentes as intervenções de Bill Clinton – um orador ímpar – nem as de um naipe interessante de senadores e personalidades de projecção nacional intercaladas entre Michele Obama (excelente discurso), Bernie Sanders, Bill Clinton e finalmente Barack Obama.
Fugindo ao habitual, e para evitar divisões no congresso, Bernie Sanders interrompeu o processo propondo que a candidatura de Hillary fosse aprovada por aclamação. Foi uma multidão delirante que seguiu a sugestão do rival de Hillary. No final, no tradicional discurso de aceitação, Hillary Clinton tinha qualquer coisa para todos. Os apoiantes de Sanders tiveram grande destaque na alocução, como tiveram as minorias, o eleitorado afro-americano, os hispânicos, os desfavorecidos, os mais abastados e sobretudo o discurso patriótico, o enaltecimento do papel dos EUA no mundo, o multilateralismo. Trump ficou sem espaço e o seu nome foi referido (por todos os oradores) muito poucas vezes, ou de passagem, quase sempre no contexto mais sensível aos americanos: defesa e segurança.
Trump deu o flanco durante a campanha afirmando ter estado, numa ocasião circunstancial, com Vladimir Putin. A campanha democrata, após o congresso, foi buscar essa afirmação, ao mesmo tempo que acusava a Rússia de ter acedido ilegitimamente aos e-mails de Hillary. E pegou. Trump teve de passar à defensiva e deixar a arena aos democratas.
Vamos seguramente assistir a uma das campanhas mais sujas de que há memória nos EUA. Prevê-se que Hillary se dedique aos temas de Estado a que o seu rival tem fugido e o empurre para o caminho do insulto que ele abraçou. Houve jornais a publicar estatísticas dos epítetos de Trump a Clinton. Mas a verdade é que resultou no eleitorado que não gosta ou não simpatiza especialmente com Hillary Clinton. Todavia, este eleitorado está em Estados com menos eleitores no Colégio Eleitoral, ou começa a estar farto de insultos.
Qualquer que seja o resultado, o GOP sai a perder. Pode ganhar um Presidente, mas perde no Congresso ou em governos estaduais, mas, sobretudo, sai um partido dividido que não vai ser fácil reconciliar. Se Trump perder, os republicanos perderão na mesma a representatividade, mas os barões do partido, afastados por Trump, terão um caminho mais fácil para reunificar o partido.
O resto do mundo respira fundo se Donald Trump não entrar sequer na Casa Branca.

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