Opinião

A discriminação aos albinos

Roger Godwin |

As Nações Unidas, através do seu secretário-geral Ban Ki-moon, acabam de reforçar os apelos internacionais que têm vindo a ser feitos por diferentes organizações no sentido de ser colocado um ponto final à discriminação que alguns países ainda fazem em relação aos albinos.

Este apelo, que também poder ser interpretado como uma “suave condenação” dos países que teimam em ameaçar o bem-estar, a saúde e até a vida das pessoas albinas, surge numa altura em que este problema volta a estar na ordem do dia com a divulgação de numerosos casos de violência ocorridos recentemente na Tanzânia e no Malawi.
Na sua declaração, o secretário-geral da ONU recorda que a organização a que pertence divulgou muito recentemente uma série de programas especialmente destinados às pessoas albinas que, se forem devidamente cumpridos, lhes permitirá participar plenamente na vida social dos seus países.
Acontece que, infelizmente, muitos países africanos têm boicotado os esforços das Nações Unidas, fechando os olhos a todo o tipo de crimes que são cometidos contra os albinos, muitos deles motivados por questões culturais e de tradições enraizadas em populações menos esclarecidas.
Inserida no programa alusivo ao Dia Internacional de Sensibilização para o Albinismno, a declaração de Ban Ki-moon acaba por ser uma denúncia contra flagrantes violações dos direitos humanos em todo o mundo, mas que encontram em África um eco muito maior por serem as que são mais facilmente expostos através da propagação pela imprensa internacional.
Mas na verdade a questão da perseguição e da discriminação às pessoas albinas não é apenas um problema africano, uma vez que está espalhado um pouco por todo o mundo.
Isso mesmo reconhece, implicitamente, o próprio secretário-geral das Nações Unidas quando afirma que o albinismo sempre foi objecto de mistificações que derivam de crenças e mitos completamente errados e que nada têm a ver com o sexo, raça ou condição social das vítimas.
Na realidade, nalguns países ainda subsiste a ideia de que certas poções ou muletas fabricadas a partir de partes do corpo de albinos possuem poderes mágicos, o que provocoumúltiplos casos de uma enorme procura mundial por esses produtos estranhos.
Essa procura, que não se restringe apenas ao continente africano, esteve na origem de diversos casos de rapto e de homicídios de albinos, havendo até conhecimento de situações de exumação dos seus corpos em determinados cemitérios.
O que o secretário-geral das Nações Unidas não disse é que toda essa longa história de discriminação e estigmatização fez com que as pessoas albinas, na sua esmagadora maioria, estejam actualmente a viver numa pobreza extrema, pornão terem acesso a serviços básicos, como emprego, habitação, saúde e educação.
Estranhamente, quando a nível mundial se fala da “Agenda 2030”, destinada a promover o desenvolvimento duradoiro das populações, são referidos vários níveis e classes de população mas os albinos, mais uma vez, parece terem ficado do lado de fora.
Talvez a pensar nisso e na necessidade urgente de serem dados passos concretos para reverter a situação, as Nações Unidas acabam de nomear a nigeriana Ikponwosa Ero para tratar especificamente dos direitos das pessoas albinas.
Esta perita internacional, também ela albina, na sua primeira intervenção deu como exemplo o que se passa com os seus pais albinos que vivem no Malawi, diariamente atormentados pelo medo de poderem ser as próximas vítimas da discriminação.
Se em África ainda existe a preocupação de pelo menos olhar para o problema e tentar encontrar soluções exequíveis, noutros continentes a situação é absolutamente diferente.
Nalguns países europeus, por exemplo, a discriminação em relação às pessoas albinas é de tal ordem que muitas delas ficam anos sem sequer sair de casa com receio de serem agredidas.
Nos Estados Unidos, até muito recentemente, havia Estados onde as pessoas albinas eram tratadas como animais e exibidas em circos para gáudio das crianças que desde pequenas foram ensinadas a considerá-las como uma aberração da natureza.
É por demais evidente que algo de muito substancial terá que ser feito, a nível internacional, para que a situação se altere de um modo muito significativo. O problema está por demais identificado, as soluções para o combater já foram aprovadas, faltando apenas a sua aplicação.
E é na sua aplicação que reside a grande questão que separa o que são os interesses dos diferentes intervenientes com poder para fazerem cumprir a lei. Enquanto as Nações Unidas continuarem apenas a “apelar” e a “sensibilizar” os países para a questão das pessoas albinas, muito pouco se avançará para a defesa real e concreta da sua vida e da sua dignidade.
Aquilo que deveria ser feito, sem apelo nem agravo, era chamar as coisas pelos seus nomes e apontar o dedo aos países que teimam em ser cúmplices de uma das mais vergonhosas formas de violação dos direitos humanos.
Enquanto subsistir o “pudor” em denunciar claramente o que se passa – e onde se passa – nada acontecerá que possa garantir aos albinos a defesa da sua honra e da sua vida, o bem mais precioso que tentam proteger.

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