Opinião

A forma do Zimbabwe enfrentar a crise

Roger Godwin |

A braços com uma muito propalada crise económica, aumentada com a grave seca que assola todo o país, o Zimbabwe está a tentar encontrar novas fórmulas para angariar alguns recursos financeiros com os quais conta diminuir as dificuldades.

Uma delas é o recurso à venda interna e para a exportação de alguns animais selvagens existentes nas suas savanas e também nalgumas das suas principais estradas e que tantos transtornos têm causado aos automobilistas.
Esta decisão a que recorreu o Governo zimbabweano está a levantar no país alguma onda de indignação, uma vez que essa sua fauna animal havia sido, até agora, considerada um inalienável e mais valioso património nacional.
Com o pragmatismo a que já a todos habituou, o Presidente RobertMugabe foi bastante claro ao dizer que a falta de chuva e de dinheiro no país estava a atirar esses animais para uma vida cada vez mais difícil, daí que, entre ver esses animais continuarem a morrer à fome e de sede e vendê-los para o estrangeiro, a escolha foi fácil de fazer.
Se por um lado a venda e a exportação de animais selvagens pode trazer algum aconchego aos cofres do Estado, isso vai também levar a que se assista, a curto prazo, ao despedimento de muito do pessoal que trabalha, precisamente, em parques e na defesa e tratamento dessa fauna.
Quem se recorda da celeuma erguida em torno da morte de um leão, que depois se veio a saber se chamava “Cecil” e era uma espécie de “símbolo nacional”, não deixa de estranhar que, de um momento para o outro, o Zimbabwe decida vender o que na altura os seus mais altos responsáveis disseram ser  um dos seus bens mais preciosos.
No Zimbabwe, 2,8 milhões de pessoas – mais de um quarto da população rural – corre risco de fome e a escassez de água e pastos em todos os parques nacionais faz temer uma situação semelhante à de 1992, quando morreram milhares de animais. Neste momento o Zimbabwe é um país também mergulhado na mais grave crise económica dos seus mais de 30 anos de história, o que não o impede de defender com enorme vigor e muita dignidade a sua soberania e o direito a mandar na gestão dos seus próprios recursos.
É claro que isso, no ocidente, é entendido como arrogância, mas internamente rotula-se de orgulho nacional, acarreta custos sociais, políticos e económicos para os quais todos os zimbabweanos terão que contribuir.
Pelo menos até agora, como ficou comprovado nas eleições disputadas há três anos e nas declarações que têm sido manifestadas em diversas ocasiões pela população, a maioria dos zimbabweanos ainda está em sintonia com o seu carismático líder e, por isso, disposta a arcar com os custos pelo direito à sua dignidade enquanto cidadãos de um país que ousa resistir às ingerências externas.
Essa disposição provoca em determinadas forças ocidentais uma irritação que, frequentemente, se expressa através de posições de autêntica chantagem política como sucede, por exemplo, com a questão das sanções económicas impostas pela União Europeia e que estão em vigor desde 2008.
Essas posições têm até agora tido o condão de unir ainda mais os zimbabweanos em torno do seu líder e das decisões que este toma, sempre com o declarado objectivo de defender a dignidade do país.
Porém, neste caso da venda para exportação dos animais selvagens, essa unanimidade parece estar a encontrar algumas brechas por onde ameaça entrar uma contestação mais veemente contra RobertMugabe.
Por exemplo, o Director da Força Especial para a Preservação do Zimbabwe, o luso-descendente Johnny Rodrigues, já veio a público dizer que esta decisão do Governo era uma forma de “espoliar o país de uma das suas principais riquezas”.
Para ele, apesar da decisão não o explicitar de forma expressa, a intenção é a de vender a esmagadora maioria dos animais para o estrangeiro, uma vez que, ao abrigo da nova lei das terras, a maioria das 640 reservas privadas existentes no país são demasiado pequenas para os receber.
Por outro lado, este mesmo responsável acrescenta que a decisão do Governo levará ao encerramento de muitos dos parques naturais actualmente existentes no país, arrastando centenas de trabalhadores para o desemprego.
Mesmo os animais que fiquem nas reservas privadas estarão totalmente desprotegidos e à mercê de fazendeiros sem escrúpulos que os poderão usar para, por exemplo, a realização de caçadas particulares.
Mas, por muito valiosos que sejam, não será só com a exportação e venda de animais selvagens que o Governo zimbabweano conseguirá encontrar o dinheiro de que precisa para resolver os problemas sociais do país.
Por isso, o Governo já deixou perceber a sua intenção de aprovar uma lei de nacionalizações para o sector mineiro, cuja actividade, como tem sido repetidamente dito pelo próprio presidente Mugabe, é desenvolvida sem qualquer controlo do Estado.
A intenção do Governo é tornar esse sector, sobretudo o que envolve os diamantes, um monopólio do Estado e assim acabar com algumas concessões que haviam sido dadas a companhias estrangeiras.
Este objectivo não é novo, mas ganha agora novo impulso com as recentes acusações feitas pelo Governo e que apontam para reiteradas práticas, por parte de algumas empresas, que colocam em risco o que são os interesses do Zimbabwe e violam os protocolos que haviam sido estabelecidos.
A produção de diamantes no Zimbabwe, um dos dez maiores produtores mundiais, baixou de 660 mil carats para 420 mil nos cinco primeiros meses do ano de 2015, em relação ao mesmo período em 2014.

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