Opinião

Ainda as consequências do genocídio no Ruanda

Roger Godwin |

Apesar do facto ter ocorrido quando decorria o ano de 1994, a verdade é que passados todos estes anos ainda está bem viva na memória de todos o genocídio étnico que assolou o Ruanda e que provocou a morte a mais de 800 mil pessoas, a sua maioria da minoria tutsi.

Desta feita o trágico acontecimento volta à luz do dia por força de uma decisão da justiça francesa de fazer sentar no banco dos réus dois ruandeses acusados de responsabilidade directa no massacre de centenas de tutsis que, para fugirem à morte, teriam procurado refúgio numa igreja situada na localidade de Kabarondo, localizada na região a leste do Ruanda.
Tratam-se de doia antigos prefeitos da referida localidade, Ocatavien Ngenzi e Tito Barahira, detidos em França para onde fugiram depois do fim do genocídio e que, entretanto, desmentem todas as acusações.
De acordo com a acusação, os massacres teriam sido cometidos em diversas ocasiões e, por isso mesmo incorrem na prática de “crimes contra a humanidade” e “prática maciça e sistemática de execuções”.
Este julgamento, que deverá demorar dois meses, surge dois anos depois do de Pascal Simbikangwa, ex-capitão do exército do Ruanda que acabou condenado a 25 anos de cadeia por cumplicidade na prática do crime de genocídio.
Já em Outubro de 2015, um processo que envolveu o padre Wenceslas Munyeshyaka viria a ser arquivado em virtude da falta de comparência das testemunhas de acusação que acabaram por não viajar do Ruanda para França.
Esta aparente “boa vontade” da justiça francesa em levar a tribunal alguns ruandeses que se encontram refugiados no país está a ser recebida, pelo presidente Paul Kagame, com alguma reserva.
Recentemente, Kagame fez mesmo questão de pedir publicamente às autoriaddes francesas que digam qual é o seu objectivo com todos estes processos uma vez que, segundo ele, Paris foi um dos países que na altura mais apoiou os autores do genocídio w que agora parece quererem punir.
Neste momento estão instruídos em França quase 30 processos que envolvem ruandeses, alegadamante ligados aos tristes acontecimentos que se registaram em 1994, o que levou as autoridades judiciais francesas a criarem um grupo especial de juízes e de investigadores para lidarem com os diferentes casos.
Esse grupo de investigadores e de magistrados encarregados de gerir esses processos, têm-se queixado de alguma falta de cooperação por parte da justiça do Ruanda naresposta a alguns pedidos de esclarecimento relacionados com determinados episódios ocorridos em 1994.
Outro dos problemas está ligado ao facto da maioria das testenunhas de acusação contra os detidos viverem no Ruanda e estarem, por isso mesmo, a ter algumas dificuldades em deixar o país em virtude dos inúmeros obstáculos colocados pelas autoridades locais de emigração.
Por sua vez, os investigadores franceses também sentem alguns transtornos na obtenção de vistos para viajar para o Ruanda estando, por isso, os processos a demorar muito mais tempo do que seria previsível.
O caso concretro dos alegados massacres que tiveram lugar na localidade de Kabarondo são um exemplo destas dificuldades, com muitas das testemunhas a terem que atravessar a pé a fronteira com a Tanzânia para daí poderem, mais facilmente, deslocar-se para França.
Cono a localidade é perto da fronteira tanzaniana, os investigadores franceses chegaram mesmo já a instalar-se neste país para mais facilmente ouvir alguns depoimentos e assim levarem por diante o seu trabalho de modo mais célere.
De sublinhar que a localidade de Kabarondo foi das primeiras onde o genocídio chegou ao fim, em Abril de 1994, depois que as tropas da Frente Patriótica Ruandesa a ocuparam provenientes, precisamente, da vizinha Tanzânia.
Para as autoridades de Kigali, que emanam da Frente Patriótica Ruandesa, que terminou com o genocídio sob a liderança do actual presidente Paul Kagame, a França foi um país que esteve por detrás do assassinato de Juvenal Habyarimana, líder hutu que então estava no poder. Foi esse assassinato, na altura atribuído aos tutsi, que terá despoletado a onda de massacres que se seguiram e que configuararam o referido genocídio perante uma estranha passividade da comunidade internacional, nomeadamente da França.
Neste momento, mais importante que discutir o papel que a França eventualmente desempenhou no genocídio ruandês é punir, com rigor e isenção, todos aqueles que estiveram directamente envolvidos nos massacres para que a história, ainda que tardiamente, registe que a justiça foi feita. Embora isso não resolva nem rectifique o que então se passou, ficará para sempre a certeza de que, mais tarde ou mais cedo, o crime foi punido e as vítimas, de uma forma ou de outra, reconhecidas como tal pelo castigo dado aos seus carrascos.
Aos sobreviventes restará a consciência e a certeza de que os criminosos estão atrás das grades e que a sociedade está determinada a não deixar que situações dessas se repitam impunemente, seja no Ruanda ou em qualquer outro país do mundo.

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