Opinião

Alianças terroristas em África

Roger Godwin

Finalmente, as Nações Unidas parecem ter despertado para aquilo que já é, desde há muitos anos, a realidade de as populações africanas estarem a ser confrontadas com o perigo do constante crescimento do fenómeno do terrorismo, tanto na sua perigosidade como na sua localização geográfica.

Este facto, que desde há muito vem sendo repetidamente denunciado por países e organizações africanas perante a indiferença do ocidente, foi agora reconhecido pelas Nações Unidas em resultado do efeito directo que pode representar para o combate que está a travar contra o chamado “Estado islâmico” na Síria, também no Iraque e na Líbia.
Numa rara demonstração de clarividência, no que toca à análise objectiva do que se passa no continente africano, o todo poderoso Conselho de Segurança das Nações Unidas decidiu “alertar o mundo” para o perigo da aliança que está a ser desenvolvida na prática entre o “Estado Islâmico” e o grupo Boko Haram, uma organização que desde há vários anos vem aterrorizando as populações do norte e nordeste da Nigéria, do Chade, Camarões e Níger.
Numa declaração proposta pelos Estados Unidos e destinada a saudar a iniciativa do Presidente nigeriano, Muhammadu Buhari, em acolher uma cimeira de líderes regionais, na qual o Presidente francês disse também querer participar, o Conselho de Segurança alertou para a necessidade de serem tomadas medidas urgentes para evitar o efeito do avanço da referida aliança entre o “Estado Islâmico” e o Boko Haram.
A verdade é que esta aliança entre os dois mais perigosos grupos terroristas do mundo não é nova, uma vez que desde 2014 se sabe da existência de uma direcção conjunta entre as duas organizações criminosas que tem permitido ao Boko Haram usar as plataformas e as redes digitais do “Estado Islâmico” para melhor propagandear as suas acções.
Existe igualmente a certeza de que vários membros do Boko Haram receberam formação terrorista na Síria e no Iraque, havendo mesmo o receio de que sejam esses elementos que possam agora estar a tentar evitar a derrota total deste grupo terrorista, a qual já havia sido perspectivada e depois anunciada, algo apressadamente, pelas autoridades nigerianas.
É igualmente revelador o empenho que os Estados Unidos agora estão a querer ter no controlo dos esforços que estão a ser feitos pelo Governo nigeriano para evitar que o Boko Haram recupere a sua capacidade militar.
Aliás, a administração Obama e o Governo britânico já nomearam os seus representantes para acompanhar de muito perto tudo aquilo que tem a ver com o combate ao Boko Haram e com os esforços que terão que ser reforçados para evitar a consolidação da aliança com o “Estado Islâmico”.
O secretário de Estado Adjunto norte-americano Antony Blinken e o secretário dosNegócios Estrangeiros britânico são as personalidades que, respectivamente, os Estados Unidos e a Inglaterra escolheram para trabalhar em conjunto com o Governo nigeriano para encontrar as melhores soluções que evitem que essa aliança vá em frente.
O Chade, Camarões e o Níger não ficaram de fora desta nova estratégia ocidental, tendo-lhes sido pedido pelas Nações Unidas que continuem a apoiar a Nigéria a combater o Boko Haram e assim evitar a expansão do “Estado Islâmico” para o interior do continente africano, onde seriam o alvos mais fáceis de atingir.
É aqui que, na realidade, existe a verdadeira intenção das Nações Unidas e por tabela dos países ocidentais em darem maior apoio à Nigéria para que esta possa melhor combater o Boko Haram, uma vez que sabem que só dessa forma poderão evitar a penetração em África de elementos do “Estado Islâmico”.
Neste momento, existe já um número não determinado de elementos do “Estado Islâmico” instalados na Líbia, tendo alguns deles conseguido infiltrar-se na Tunísia e na Argélia, de acordo com relatos feitos pelas respectivas autoridades.
O que ainda se não sabe é quantos membros dessa organização já terão conseguido ir mais para o interior de África, embora exista a suspeita de que já tenham criado bases no Mali e no Burkina Faso.
Esses elementos estarão mesmo já a tentar criar células, recorrendo a muitos jihadistas da Al Qaeda do Magreb descontentes pelo facto desta organização estar a ser relegada para um plano secundário quando à forma como aterroriza as populações nos países e regiões onde se encontra.
Os Estados Unidos desde há algum tempo que mantêm alguma cooperação com a Nigéria no que respeita ao apoio para a detecção, via radar, dos principais locais onde se encontram os terroristas.
Graças a essa colaboração foi mesmo possível, nos últimos meses, ao Exército eliminar um elevado número de terroristas e assim passar a uma fase que se pensava ser apenas de perseguição e neutralização de meras forças residuais desse grupo.
Porém, as coisas parecem estar mesmo a mudar com o reconhecimento da possibilidade de a aliança entre as duas organizações terroristas poder passar a uma fase na qual essa aliança pode revelar um efeito contrário aos esforços que o Governo nigeriano tem vindo a fazer no último ano.
É evidente que o apoio do Ocidente para o reforço da capacidade de combater o terrorismo é muito apreciado pela Nigéria, mas também existe a convicção de que esta nova disponibilidade resulta mais do interesse particular ocidental em combater o “Estado Islâmico” do que, propriamente, em atacar o Boko Haram.
Não obstante esta realidade, não deixa de ser positivo e terá que ser devidamente aproveitado o facto de o Ocidente, finalmente, parecer querer olhar para África de uma outra maneira, pois isso é o reconhecimento daquilo que a própria União Africana vinha reafirmando: o terrorismo é um problema global e deve ser tratado de uma maneira também ela global.
Só é pena que fosse necessária a certeza de que a aliança entre o “Estado Islâmico” e o Boko Haram representa um verdadeiro perigo agravado, para que algumas medidas possam sem tomadas.A grande verdade é que essas medidas, sejam quais forem, não afastam o perigo de que mais africanos possam continuar a ser vítimas inocentes do terrorismo e de um modo, pelo menos até agora, distorcido de o encarar e de o combater.

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