Opinião

As ingerências norte-americanas na região de Darfur

Roger Godwin |

O Governo do Sudão reagiu energicamente a mais uma descarada ingerência dos Estados Unidos sobre o que se passa em Darfur, com a agravante de ter sido feita numa altura determinante para o futuro daquela conturbada região.

Não obstante o esforço que o Governo de Cartum tem feito para agradar ao “amigo americano”, a verdade é que está mais uma vez provado que os Estados Unidos não perdem uma oportunidade que seja para tentar impor, por todos os meios, a sua estratégia em países que têm a ousadia de escolher o seu próprio caminho.
Desta feita, o Governo de Washington decidiu emitir um comunicado a criticar a decisão do Governo do Sudão em realizar um referendo para decidir sobre o futuro estatuto da região de Darfur.
Nesse comunicado, no próprio dia da realização desse referendo, os Estados Unidos consideram que este não é o “momento oportuno” para que ele se realize, passando por cima do facto de ocorrer, precisamente, por uma imposição sua feita numa altura em que o Governo sudanês estava aparentemente mais fragilizado do ponto de vista político e, sobretudo, militar.
Esta posição norte-americana, que mais não é do que uma mera “caixa de ressonância” daquilo que já foi dito pelos rebeldes de Darfur, foi recebido em Cartum com uma enorme surpresa, até porque ela surgiu depois de o Sudão ter assinado um documento denominado “roteiro para a paz”, proposto pelos Estados Unidos e no qual constava, precisamente, a marcação de um prazo para a realização deste referendo.
Esta nova ingerência dos Estados Unidos num assunto interno de um outro país, neste caso do Sudão, mereceu já uma enérgica reacção por parte do Governo do presidente al-Bechir, tendo o embaixador norte-americano sido chamado ao Ministério dos Negócios Estrangeiros, onde recebeu uma nota diplomática na qual está expressa a condenação oficial em relação a este incidente.
Esta reacção norte-americana acaba por dar razão aos críticos do presidente al-Bechir, sobretudo aos que não o pouparam quando decidiu assinar o roteiro para a paz proposto pelos Estados Unidos e ao abrigo do qual acabou por fazer uma série de concessões políticas àquilo que têm sido os desígnios de alguma comunidade ocidental.
Uma dessas concessões, por exemplo, foi a aceitação de receber refugiados provenientes do Sudão do Sul sem ter antes acautelado um acordo com as Nações Unidas para tratar do financiamento de todo esse processo.
Uma outra concessão feita ao abrigo do roteiro para a paz tem precisamente a ver com o futuro estatuto para a região de Darfur, onde consta a realização de uma consulta popular em data a acordar entre o Governo e os representantes dos rebeldes, mas com limite temporal que terminava a meio deste ano. Não sendo de prever que a ingerência dos Estados Unidos tenha resultado do facto de o referendo ter sido feito dois meses antes do prazo limite, é mais credível que ela tenha mais a ver com uma tentativa de influenciar o seu resultado final.
Se assim foi, como parece ter sido, é caso para se dizer que os Estados Unidos estão mais interessados em ajudar politicamente os rebeldes do que, propriamente, em contribuir para que a vontade da população local seja democraticamente respeitada, seja ela qual for.
E a vontade popular que tem sido recentemente reforçada através de declarações de algumas forças rebeldes é semelhante àquilo que o Governo de Cartum defende e que foi mais uma vez expresso há poucos dias durante uma visita que o presidente al-Bechir fez à região de Darfur.
A ideia do Governo do Sudão, que está a ganhar um número crescente de adeptos, é manter o actual estatuto de Darfur com a existência de cinco Estados, enquanto os rebeldes mais radicais pretendem fundi-los num só.
Numa altura em que ainda se aguardam os resultados finais deste referendo, que decorreu segunda-feira, a maioria acredita que vencerá a posição defendida por Cartum, até porque os grupos rebeldes que defendem a existência de um único Estado apelaram ao boicote.
Este apelo dos rebeldes, que deveria estar a preocupar – e muito – os Estados Unidos, deixa perceber a forte possibilidade de eles não virem a aceitar o resultado do referendo, mantendo assim uma insistente resistência armada em relação a a vontade popular.
Essa resistência armada, que é a expressão prática de uma posição política que denota uma enorme intransigência e que, se contar com apoios políticos mais ou menos claros por parte de países como os Estados Unidos obviamente terá reflexos directos na estabilidade na região, podendo mesmo ser o rastilho para o reacender da chama da violência.
Para muitos países ocidentais, o que se passa em Darfur tem sido uma forma de atirar contra o Governo do Sudão uma série de acusações, não se cuidando de avaliar qual tem sido o comportamento dos diferentes grupos rebeldes que lá operam com uma quase total impunidade.
Foi também graças ao que se passa em Darfur que o Tribunal Penal Internacional (TPI) gizou um processo contra o presidente al-Bechir que esteve depois na origem da emissão de um mandato de captura internacional por força do qual o queriam isolar no seu próprio país.
Neste momento, al-Bechir é um presidente com uma popularidade interna beliscada por ter posto a sua assinatura num roteiro para a paz imposto pelos Estados Unidos mas que pode ficar na história como tendo sido o líder que conseguiu vencer uma rebelião, neste caso a de Darfur, contando com o apoio de uma população à qual foi dada a oportunidade de votar no que deseja ser o seu futuro próximo.

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