Opinião

As "operações de limpeza" das tropas nigerianas

Roger Godwin|

O Exército nigeriano, com o precioso apoio das populações, prossegue com as “operações de limpeza” destinadas a neutralizar o que ainda resta das forças residuais do grupo terrorista Boko Haram.

Essas “operações de limpeza”, que estão a ser acompanhadas da aplicação de programas de desminagem nas zonas que vão sendo libertadas, têm-se revelado preciosas para desbaratar as forças residuais e, também, para mobilizar as populações para a necessidade de estarem activas e participarem na luta pela libertação e posterior defesa das suas vilas e aldeias.
Um porta-voz do Exército nigeriano, fazendo um rescaldo dessas operações, sublinhou que na semana passada foram abatidos cerca de 30 rebeldes e libertados 199 populares, na sua maioria mulheres e crianças.
Nessas mesmas operações, foram ainda detidos 17 membros do Boko Haram e capturado diverso tipo de armamento que estava a ser usado para obrigar as populações a permanecerem sob cativeiro. A grande novidade nesta nova fase da luta do Exército nigeriano contra as forças residuais do Boko Haram é que as populações estão a ser envolvidas nas operações, sendo elas que depois ficam encarregues de organizar e gerir a sua própria defesa contra eventuais novos ataques dos rebeldes.
Esta opção do Exército nigeriano, porém, tem merecido algumas críticas por parte de algumas organizações humanitárias que se encontram no terreno e que alegam estarem a ser cometidos alguns abusos por parte de militares e de populares a quem são entregues as armas.Uma dessas críticas está relacionada com a morte de 350 muçulmanos de minoria xiita que, supostamente, teriam sido confundidos por populares com membros do Boko Haram.
Este incidente, se assim se pode chamar, aparece na sequência de outras denúncias que vão no sentido de atribuir ao Exército a responsabilidade directa por um conflito religioso que estaria a ocorrer no norte e nordeste da Nigéria e que se consubstancia numa cerrada perseguição aos muçulmanos xiitas, mesmo aos que também estão empenhados em combater o terrorismo.
No final do ano passado o Exército reconheceu ter morto cerca de 100 membros do Movimento Islâmico da Nigéria, uma organização xiita que o Governo suspeita pudesse ter algumas ligações com o Boko Haram. Na altura, um porta-voz do Governo atribuiu esse incidente a uma tentativa que esses 100 elementos do Movimento Islâmico da Nigéria teriam feito para atacar uma caravana automóvel onde seguia o chefe do Estado-Maior do Exército, o general TukurBuratai. Depois de investigações, a polícia viria a deter o líder desse grupo, IbrahimZakzaky, bem como a sua esposa e alguns dos seus filhos, acusando-os de conspiração contra as Forças Armadas.
Desde essa altura o Movimento Islâmico da Nigéria passou a viver quase que na clandestinidade, com os seus membros a fugirem das suas zonas de habitação para locais mais isolados, recusando sempre, contudo, qualquer tipo de ligação ou simpatia para com os terroristas do Boko Haram.
Na verdade, as alegações do Exército de que existe uma cumplicidade entre este grupo e os terroristas não fazem qualquer sentido, uma vez que o Boko Haram é de inspiração sunita e, por isso mesmo, inimigo feroz e histórico dos xiitas que são a base do Movimento Islâmico da Nigéria.
As organizações não governamentais que se encontram no terreno e acusam o exército de perseguição ao Movimento Islâmico da Nigéria temem que, aproveitando o actual de instabilidade na região norte do país, haja a tentação de provocar o extermínio étnico dos xiitas mais pacíficos que os sunitas e, por isso mesmo, muito mais vulneráveis.
Neste momento, o Exército nigeriano encontra-se a desenvolver o que designou de “operações de limpeza” no sentido de confinar a um reduzido espaço de terreno os elementos que ainda restam do Boko Haram.
Perto dessa zona, localizada algures no norte do país, foi criado um campo de acolhimento para os rebeldes que se queiram entregar e participar em programas de reinserção social. Esse campo de acolhimento já está a funcionar, mas ainda não existem pormenores sobre o número de indivíduos que lá se foram entregar, num processo que também não está isento de críticas por parte das organizações humanitárias que gostariam de acompanhar o seu desenvolvimento. Essas organizações receiam que esse “campo de acolhimento” possa transformar-se num enorme centro penitenciário, dentro do qual os detidos poderiam vir ser vítimas de várias formas de maus tratos.
O Governo nigeriano ainda não respondeu a um pedido feito pelas Nações Unidas no sentido de enviar uma equipa para inspeccionar esse centro de acolhimento, o que serviu, ainda mais, para aumentar os receios.
De sublinhar que durante o tempo mais difícil da luta contra o Boko Haram a Nigéria, por várias vezes, pediu o apoio internacional de organizações e países, recebendo apenas respostas positivas e práticas da parte dos Estados vizinhos, nomeadamente, Níger, Camarões e Chade.

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