Opinião

As tentativas de mediação de Portugal e Santo Egídio

Roger Godwin |

A comunidade católica de Santo Egídio, de modo já esperado mas algo intempestivo, decidiu aceitar a “sugestão” apresentada pela Renamo e reiterada pelo Presidente português, Marcelo Rebelo de Sousa, para tentar mediar a busca de uma solução para o problema de Moçambique.

 

Depois de o Governo moçambicano ter rejeitado de modo determinado a possibilidade apresentada pela Renamo para uma mediação internacional no conflito interno do país, eis que a referida comunidade católica aceitou participar numa intervenção que está a ser encarada por alguns sectores em Moçambique como sendo incentivada pelos interesses privados que a comunidade internacional quer ter no país.
Para já, a comunidade de Santo Egídio parece ter encontrado no Presidente português um precioso aliado de ocasião para tentar convencer o Governo de Maputo a aceitar a mediação internacional como modo de dirimir o conflito com os rebeldes da Renamo.
Depois de se ter encontrado por duas vezes em Roma com responsáveis daquela comunidade católica, Marcelo Rebelo de Sousa conta, durante a visita que efectua esta semana a Moçambique, conseguir convencer o seu homólogo, Filipe Nyusi, a aceitar negociar com a Renamo por intermédio de parceiros estrangeiros.
Criada em Roma quando corria o ano de 1968, a comunidade católica de Santo Egídio, composta essencialmente por leigos, teve um papel fundamental na busca de soluções que levaram, a 4 de Outubro de 1992, à assinatura, em Roma, de um acordo entre a Frelimo e a Renamo que pôs fim a 16 anos de guerra civil.
Este acordo, contudo, viria a falhar depois de a mediação, nomeadamente a mesma comunidade católica, dar garantias não fundamentadas de que a Renamo se havia desmilitarizado, contribuindo, desse modo, para o reacender do conflito que até hoje se mantém.
Foi essa distorcida informação, que enganou a Frelimo e outros países estrangeiros, que estará na base da actual recusa que as autoridades de Maputo têm mantido em relação a uma proposta da Renamo no sentido de a comunidade de Santo Egídio mediar agora um novo processo de paz entre duas das principais formações políticas do país.
Marcelo Rebelo de Sousa aparece no meio destes esforços em virtude da sua política de “afectos” e de “amor” que diz ter a Moçambique, que advém do facto de o seu pai ter sido o último governador do colonialismo português neste país africano.
Filipe Nyusi foi o único Chefe de Estado africano a ter sido convidado para a cerimónia oficial da tomada de posse de Marcelo Rebelo de Sousa, com o argumento do já referido “grande amor” que o Presidente de Portugal tem em relação a Moçambique, mas que não deixa de constituir uma enorme e polémica influência da sua vida privada com aquilo que deveriam ser os superiores e independentes interesses políticos e estratégicos do país.
Até ao momento a posição da Frelimo e do Governo do Presidente Nyusi tem sido a de rejeitar, de modo peremptório, todas as tentativas internacionais de mediação desta fase do conflito com a Renamo, insistindo na ideia de que uma solução efectiva só pode ser encontrada através de uma negociação directa com os rebeldes.
Por sua vez, a Renamo tem recusado todos os convites para o diálogo directo, alegando falta de confiança no Governo e no Presidente da República, exigindo por isso a intervenção da mediação internacional.
Marcelo Rebelo de Sousa vai tentar aproveitar a sua amizade pessoal com o Presidente Nyusi e com o líder dos rebeldes, Afonso Dlakhama, para ser ele próprio o mediador de serviço, ainda que recorrendo à experiência negocial da comunidade católica de Santo Egídio.
Dentro de dias se saberá se os “afectos” de Marcelo Rebelo de Sousa a Moçambique terão uma resposta por parte de Filipe Nyusi ao ponto de o fazer reverter da sua posição inicial em relação à mediação do conflito poder ter uma intervenção estrangeira, nomeadamente, da comunidade de Santo Egídio.
Até lá, importa referir que o Governo moçambicano veio já a público desmentir notícias postas a circular na imprensa internacional que davam conta da descoberta de uma vala comum com mais de 100 corpos que teria sido encontrada no Distrito da Gorongosa, próximo de uma mina onde era feita a extracção ilegal de ouro.
Segundo as autoridades da Gorongosa, a foto publicada por alguns meios de informação estrangeiros, terá sido tirada há mais de quatro anos e retrataria vítimas das cheias, habituais naquela região.
Algumas organizações internacionais, por via desta “notícia”, estavam a acusar o Governo de Filipe Nyusi de ter cometido o crime de massacre contra eventuais membros da Renamo, uma vez que é na Gorongosa que os rebeldes têm o seu principal bastião.
A situação no centro de Moçambique continua instável, subsistindo a ameaça de problemas na circulação de pessoas e bens em determinadas localidades que continuam ocupadas pelos rebeldes e nas quais, frequentemente, as forças governamentais tentam intervir.
Depois da ameaça feita pelos rebeldes de ocuparem pela força seis distritos da região centro, precisamente aqueles onde alegam ter obtido maioria de votos nas últimas eleições, as forças do Exército multiplicaram as acções de vigilância e de protecção das populações de modo a garantirem a manutenção da ordem pública e da unidade nacional.

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