Opinião

Democracia no Burundi atacada à granada

Roger Godwin |

Uma série de ataques à granada, efectuados desde a última sexta-feira por elementos conotados com a oposição, têm estado a ameaçar o poder no Burundi e a provocar o caos e o temor no seio da população de Bujumbura, em especial naquela afecta ao Presidente Pierre Nkurunziza.

Os ataques tiveram por alvo locais de forte concentração popular, havendo, até ao momento e segundo dados oficiais, a registar a ocorrência de três mortos e de cinco feridos, todos entre a população civil.
Embora esses ataques ainda não tenham sido reivindicados, existem poucas dúvidas de que os seus autores são elementos ligados à oposição ao Governo do Presidente Pierre Nkurunziza.
As autoridades do Burundi estão a tratar estes ataques como sendo actos “terroristas” realizados por “criminosos armados”, o que abre um vasto campo de manobra para a actuação das forças policiais e posterior tratamento judicial em relação às pessoas que forem consideradas as autoras efectivas dos atentados.
Todos os ataques tiveram por alvo bares e restaurantes dos arredores de Bujumbura frequentados por populares dos bairros, todos eles afectos ao Presidente Nkurunziza, o que deixa perceber ter havido a clara intenção de atingir um determinado sector político da população.
Nas últimas semanas a cidade de Bujumbura tem sido palco de uma série de incidentes destinados a testar a reacção das forças de segurança, como se existisse uma estratégia de provocação para levar a uma atitude mais musculada das autoridades, propiciando, depois, a habitual intervenção externa de organizações especializadas em conspirar para derrubar governos legítimos.
As acções de desestabilização desses grupos opositores ao regime querem provocar no Governo um tipo de reacção que depois os coloque no papel de vítimas da “violência” e das opções “anti-democráticas” das autoridades.
Não obstante ser uma estratégia que nada tem de novo, por ser repetida em inúmeros países africanos, a verdade é que ela infelizmente ainda dá alguns resultados, fruto da cumplicidade interna de pessoas, individuais e colectivas, que se deixam servir com a esperança de terem depois uma participação no poder, por mínima que seja.
Desde a reeleição de Pierre Nkurunziza, em Dezembro de 2015, que o Burundi se tornou num alvo a abater por parte de algumas potências internacionais.
Apesar da aplicação de um política de perdão em relação à maioria daqueles que, nessa altura, usaram da força física para tentar fazer valer as suas ideias políticas, a verdade é que esses países ainda não desistiram das suas intenções, continuando a encarar o Governo de Nkurunziza com um desdém que não merece, uma vez que foi confirmado em resultado de eleições que os observadores internacionais consideraram ter decorrido acima de qualquer suspeita.
Contando com um forte apoio interno, o Presidente Nkurunziza tem gerido a situação com uma enorme paciência, apoiando-se nos países amigos, sobretudo os da região dos Grandes Lagos, que têm sido incansáveis na tentativa de convencer a oposição a aceitar as regras da democracia.
Porém, essa mesma oposição, que já foi batida em três actos eleitorais, parece não querer esperar pelo próximo pleito e pretende encurtar caminho para tentar chegar ao poder pela força das armas, ainda que isso custe o derramar do sangue de muita gente inocente.
Nisso, o Burundi não está sozinho, pois noutros países as oposições não costumam também ter a paciência suficiente para esperar pela sua vez, servindo-se de complicadas alianças internacionais para atingir os seus objectivos.
Neste momento o Burundi está a atravessa mais um período de instabilidade devido à acção de um grupo de marginais que usa a granada como argumento para se opor ao Governo.
Trata-se de uma opção forte, que mereceu da parte das autoridades uma postura igualmente forte capaz de provocar algumas ondas de choque e uma reacção negativa da parte das organizações internacionais.
Ao considerar “terroristas” os autores desses ataques, as autoridades estão a abrir caminho para a criação de mecanismos judiciais um tanto ou quanto radicais que podem ser aproveitados pela oposição para atacar o próprio presidente.
Mas, é evidente que Pierre Nkurunziza não pode continuar a estar refém de uma estratégia de intimidação com receio de usar mão forte para punir os autores de crimes que, podendo não ser de terrorismo, na prática, têm efectivamente o mesmo efeito prático.
Cada país tem o direito absoluto de aprovar as leis e as estratégias que melhor julguem servir a defesa da sua soberania e a vida das suas populações, sem que isso seja entendido como um sinal de falta de democracia.
Costuma dizer o povo que “para grandes males, grandes remédios” e foi isso que as autoridades do Burundi agora optaram por tomar para punir os autores dos ataques à granada que estão a infernizar a vida da população de Bujumbura.
Espera-se, agora, que aqueles que verdadeiramente estão por detrás desses ataques, nas principais capitais do mundo, não caiam na fácil e ridícula tentação de acusar o governo do Burundi do uso de excesso de força ou de autoridade para punir membros da oposição política.
É que, essas mesmas personalidades que agora poderão intervir, serão as mesmas que ficaram estranhamente silenciosas quando se registaram os ataques à granada contra gente inocente cuja única “culpa” foi a de, supostamente, ter exercido o seu democrático direito de voto na reeleição do Presidente Pierre Nkurunziza.

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