Opinião

Divisões internas complicam paz na Líbia

Roger Godwin |

Não obstante os esforços que a comunidade internacional, sob a batuta das Nações Unidas, estão a desenvolver na Líbia o facto é que as até agora insanáveis divisões internas estão a complicar a consolidação de qualquer tipo de plano de resolução do conflito.

Depois a criação de um governo de unidade, pensava-se que seria mais fácil silenciarem-se as armas e enontrar as fórmulas de reconciliar a grande nação líbia para que, finalmente, pudesse arrancar um credível projecto de reconstituição das esperanças perdidas.
Porém, a verdade é que nos últimos dias se têm registado uma série de incidentes que deixam perceber a existência, ainda, de uma série de problemas que não se resolveram, unicamente, com a formação de um governo de unidade.
Um desses problemas dá pelo nome de Khalifa Hafter, antigo general do exército agora apostado em não abrir mão do controlo da cidade de Benghazi, a segunda mais importante do país.
Este general na reserva, com uma enorme influência a nível das forças armadas, continua a combater as diferentes milícias armadas, muitas delas moderadas, que ainda existem em redor de Benghazi, não respeitando os acordos de cessar-fogo que foram assinados entre quase todos os grupos.
Ainda agora e pela primeira vez desde os últimos meses, os homens que ele controla usaram mísseis para dispersar um grupo de pessoas que se manifestavam contra si, precisamente por o responsabilizarem pelo facto de, ao contrário do que sucedeu em Trípoli, o silenciar das armas ainda não ter sido implementado em Benghazi.
O general Hafter, desde 2013, como que se tornou numa espécie de “cavaleiro negro” do orgulho nacional líbio apostado em combater de armas na mão os grupos de milícias que ele considera terem sido aliados das forças ocidentais que provocaram o assassinato do coronel Muammar Kadhafi.
 Para essa sua cruzada passou a contar com desertores do exército que funcionava sob a ordens de Kadhafi e, ao mesmo tempo, a lutar contra todas as tentativas de acordos mediados, precidamente, pelos mesmos países ocidentais que estiveram por detrás do derrube do regime em 2011.
 Aquartelado na cidade de Ben-ghazi, onde se instalou depois que esta cidade se libertou da influência ocidental graças à acção dos antigos elementos do exército que agora o acompanham, o general tem repetidamente dito que o problema líbio só poder ser resolvido pelas forças nacionais e que acordos impostos nunca poderão dar resultados positivos.
 Recentemente, ele fez um discurso bastante duro onde ameaçava a Liga Árabe, a União Africana e as Nações Unidas, caso estas organizações teimassem em interferir no processo da Líbia. Essas ameaças não são novas, uma vez que já anteriormente ele prometeu atacar qualquer elemento armado destas organizações que viessa à Líbia impôr o que quer que seja desde que fosse contra o que ele diz ser a vontade do povo.
 Neste momento, o país está dividido em três grandes blocos.Por um governo por ele considerado rebelde e que está estabelecido em Trípoli, por um parlamento sedeado em Tobruk e que é por ele reconhecido e por um gabinete de unidade que não tem legitimidade popular e que nenhum dos outros dois blocos reconhece.
 Esta divisão, como seria previsível e se temia, foi aproveitada por diferentes grupos terroristas para infiltrarem no país alguns jihadistas e tentarem ser um quarto bloco na disputa por significativas partes do território.
 O grande desafio que se coloca a todos aqueles que querem ajudar a resolver o problema é encontrarem a forma de unir todos estes blocos, exceptuando aquele que os terroristas pretendem criar e que deve ser fiememente combatido, em redor de um projecto de reconciliação.
 Recentemente os terroristas, sobretudo os que pertencem ao denominado “Estado Islâmico”, têm estado a ganhar algum terreno em redor da cidade de Trípoli que, de entre todos os blocos, parece ser o mais fraco. Impôr um gabinete de reconciliação formado por pessoas que internamente não têm qualquer representatividade, é um erro condenado ao fracasso e uma pura perda de tempo que só serve para cavar ainda mais fundo o fosso da desconfiança. Nisso, pelo menos, terá que ser dada alguma razão ao controverso general que sempre fez questão de sublinhar a sua firme recusa em participar num acordo que não seja proposto pelas forças nacionalistas.
Para ele os principais inimigos são, pela seguinte ordem, os terroristas, o gabinete de reconciliação e as milícias que estão em Trípoli e não reconhecem a lesgitimidade que os líbios têm em se governarem a si mesmos.
 Tudo isto pode parecer um erro de visão política, sobretudo quando se sabe que a comunidade ocidental sempre mostrou mais inclinação para se relacionar com o parlamento de Tobruk do que com o governo que está em Trípoli.
 Mas é de situações como esta, onde ninguém sabe muito bem quem é quem, que se faz o conflito da Líbia, um país onde todos querem mandar mas também onde nunguém tem condições para o fazer com as suas próprias forças.
Por isso o ideal seria mesmo que, com o general Heftar ou não, houvesse a possibilidade de ser feito um amplo debate nacional de onde pudessem sair as ideias  capazes de unir todos em redor de um projecto comum que levasse o país sair das amarras em que se encontra.
 

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia