Opinião

Egipto refaz a cooperação com aliados

Roger Godwin |

Um antigo ministro do actual Governo egípcio acaba de ser condenado a dez anos de prisão na sequência da comprovada prática de crimes de corrupção quando se encontrava no pleno desempenho das suas funções.

Trata-se do antigo responsável pela pasta da Agricultura, Salah Helal, que foi considerado culpado de ter recebido suborno de um homem de negócios para a concessão de um terreno do Estado e que depois seria revendido a um consórcio de empresários árabes.
O escândalo ocorreu em Setembro de 2015 e forçou, na altura, o ministro a apresentar a sua demissão, levando a que o presidente al-Sisi fizesse uma declaração pública a demarcar-se de Salah Helal e a anunciar um inquérito que envolveria todos os altos funcionários do Ministério da Agricultura.
Um dos outros envolvidos neste escândalo, o chefe do gabinete do antigo ministro, acabou por ser condenado a nove anos de prisão, não obstante o facto de SalahHelal ter assumido sozinho a responsabilidade dos actos de que ambos estavam a ser acusados.
Embora esta decisão judicial ainda seja passível de recurso para o Tribunal Supremo e independentemente daquilo que venha a correr em julgado, esta condenação vem provar a determinação do presidente al-Sisi em não olhar a nomes e figuras para levar por diante a sua prometida luta contra a corrupção.
Na altura da detenção do antigo ministro da Agricultura, quando ele já tinha apresentado a sua demissão, chegou a dizer-se que outros membros do executivo de al-Sisi poderiam estar, também eles, envolvidos em diferentes escândalos de corrupção, entre eles o próprio Primeiro-Ministro, Ibrahil Mahlab. Porém, o tempo foi passando e mais nenhum processo subiu a tribunal, tendo mesmo o nome do primeiro-ministro ficado “limpo”, depois de as instâncias judiciais virem a público dizer que ele estava a ser vítima de uma “obscura campanha de difamação política”.
Depois disso, já com um clima menos poluído pela suspeita, o Governo como que se motivou e passou a uma nova fase da sua programação apostando no relançamento da cooperação económica com alguns dos seus tradicionais aliados do mundo árabe.
Como resultado desses esforços e depois de intensos contactos diplomáticos, um dos primeiro grandes triunfos do Governo egípcio, na sua reaproximação do mundo árabe, foi concretizada com a recente visita que o rei da Arábia Saudita realizou à cidade do Cairo.
Durante a sua permanência na capital egípcia, Salman Bin AbdelAziz anunciou o reforço da linha de crédito que estava avaliada em cerca de 15 mil milhões de dólares e assinou um projecto que visa a construção de uma ponte sobre o Mar Vermelho e que ligará os dois países.
Paralelamente, o rei da Arábia Saudita e o presidente do Egipto assinaram 25 novos protocolos de cooperação em diferentes áreas, que vão desde a construção ao comércio, passando pela indústria e segurança.
Curiosamente, a cooperação entre o Egipto e a Arábia Saudita, adormecida durante os últimos anos da permanência de Hosni Mubarak no poder, apenas foi retomada depois da queda do presidente Mohamed Mursi.
Significa isto que a Arábia Saudita nunca aceitou a permanência da irmandade muçulmana no poder no Egipto, não obstante o facto desta organização religiosa ter sido fundada no seu território.
Desde essa altura que a Arábia Saudita se tornou no principal suporte financeiro do Egipto, o que ajudou a relançar a troca de influências entre este país e as monarquias do Golfo, fundamentais para alguns dos projectos que neste momento estão já em curso e que visam a recuperação de muitas das infra-estruturas que foram destruídas durante o período que se seguiu à “Primavera Árabe”.
Ao mesmo tempo que luta contra a corrupção e reforça a sua posição no seio do mundo árabe, o Governo egípcio vai tentando também refazer os seus laços de cooperação com alguns países africanos.
Nesse quadro estão os contactos que o ministro egípcio da Justiça tem mantido com homólogos africanos para o estabelecimento de protocolos de cooperação e de intercâmbio.Um dos objectivos da Justiça egípcia é o de colher a experiência africana em assuntos como a promoção dos direitos da mulher numa sociedade fortemente marcada pelo domínio machista.
Hossam Abdelrahim, assim se chama o ministro da Justiça do Egipto, lidera um grupo de trabalho que tem por principal objectivo encontrar formas de provocar no seio da sociedade uma nova forma de ver a mulher e de a inserir no esforço conjunto de promoção e desenvolvimento social.
Para ele, mais importante que colher informação e experiência em países onde os direitos da mulher estão mais protegidos, é procurar entendimentos junto de quem, tal como o Egipto, está a tentar agora corrigir um grave erro cultural.
Tudo isto que está agora a ser feito no Egipto serve para projectar a imagem de um país mais comprometido com o seu desenvolvimento e fortemente empenhado na correcção de alguns dos seus problemas funcionais, onde a corrupção tinha um lugar de inconfortável destaque.

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