Opinião

Elefantes na Tanzânia em risco de extinção

Roger Godwin |

Os elefantes ainda existentes na Tanzânia correm sérios riscos de extinção caso nada seja feito para travar a caça ilegal que lá continua a ser praticada numa escala verdadeiramente industrial.

De acordo com várias organizações internacionais defensoras da fauna animal, os elefantes que ainda resistem na Reserva de Caça de Selous poderão ser completamente dizimados num prazo que poderá não ultrapassar os seis anos.
Esta reserva natural da Tanzânia, considerada a segunda mais importante a nível do continente africano, já acolheu mais de 110 mil elefantes durante a década de 70 mas, actualmente, apenas lá restam pouco mais de 10 mil que são sistematicamente ameaçados pelos caçadores ilegais.
Esta reserva ocupa 55 mil quilómetros quadrados no sul da Tanzânia e, em 1982, chegou a ser nomeada Património Mundial pela Organização das Nações Unidas para a Educação, Ciência e Cultura (UNESCO).
Desde 2014 que ela foi colocada numa lista de “apertada vigilância” após a verificação de ser palco de uma intensidade da caça ilegal, chegando a haver dias em que foram abatidos seis elefantes.
De acordo com um relatório das Nações Unidas, mais de 40 mil elefantes são mortos todos os anos por caçadores furtivos, não por um qualquer estranho amor à caça mas, simplesmente, para abastecer o mercado ilegal que tem no Leste da Ásia o seu principal foco.
Esse mesmo estudo revela que a Tanzânia é um dos países africanos mais afectados por este tipo de problema devido, essencialmente, à inexistência de uma legislação adequada à situação mas, também, pela conivência que os traficantes têm encontrado junto de trabalhadores de algumas das principais reservas existentes em todo o território.
O governo tanzaniano, comprovadamente, tem informações que dão conta do facto dos grupos de caçadores furtivos que actuam no país estarem cada vez melhor preparados e usarem armas extremamente sofisticadas e capazes de abater um elefante com um único tiro.
Porém, legalmente, pouco pode fazer pois trata-se de uma situação que irá obrigar o governo tanzaniano a rever as suas estruturas judiciais e de fiscalização de forma a evitar a degradação e a eventual extinção de um sector turístico que contribuiu com uma média de seis milhões de dólares anuais para os cofres do Estado.
Sendo o turismo uma das principais indústrias do país, importa sublinhar que as suas reservas naturais constituem um ponto de destino obrigatório e que está integrado nos vários “pacotes” que as agências de viagens internacionais oferecem aos turistas de todo o mundo.
Neste momento a Tanzânia está a trabalhar com outros países afectados pelo mesmo problema, em especial o Botswana e o Zimbabwe, de modo a conseguir algum apoio para a elaboração de uma legislação extraordinária e, também, para a constituição de brigadas armadas capazes de lidar com a situação. />O Quénia, também ele a braços com os problemas causados pela acção dos caçadores furtivos, está igualmente a tentar encontrar soluções que se adaptem à sua realidade objectiva mas que está um pouco distante daquilo que é a experiência do Botswana e do Zimbabwe.
Mas, o facto é que a Tanzânia está a braços com um outro problema que ameaça afectar seriamente a sua biodiversidade e que resulta de uma série de actividades industriais, como a exploração descontrolada de petróleo e a mineração feita sem qualquer cuidado ecológico. Esta situação, para a qual parecem ter finalmente acordado as autoridades locais, tem vindo a ser denunciada em fóruns internacionais onde são expressas as preocupações ambientais que ameaçam grande parte do continente africano.
No início deste ano as autoridades tanzanianas detiveram quatro pessoas que estariam envolvidas na morte de um piloto britânico helicóptero que trabalhava para uma organização que tinha um contrato com o governo para assegurar a protecção de elefantes.
O piloto, com 37 anos, morreu quando o seu aparelho que dirigia foi atingido por tiros disparados por caçadores furtivos estrangeiros que actuavam em aparente cumplicidade com as quatro pessoas que acabaram por ser detidas.
Porém, três meses depois essas pessoas acabaram por ser libertadas devido ao facto do tribunal concluir que não conseguiu provar a intenção dos réus abaterem o aparelho, uma vez que eles alegaram estar a disparar, precisamente, contra caçadores furtivos que entretanto nunca chegaram a ser identificados.
O desfecho deste caso fez com que algumas organizações internacionais que colaboravam com o governo, muitas delas gratuitamente, decidissem abandonar os elefantes tanzanianos à sua própria má sorte.
Actualmente, apenas as Nações Unidas parecem estar dispostas a ajudar o governo a proteger a sua fauna animal mas, fazem depender a continuação desse apoio à adopção de uma legislação que desmotive a existência de redes internamente organizadas para apoiar os caçadores furtivos vindo do exterior.
Estando, neste momento, a decisão nas mãos das autoridades, as Nações Unidas decidiram congelar provisoriamente um apoio financeiro substancial para a protecção efectiva de algumas reservas naturais existentes na Tanzânia e onde se inclui a de Selous.
A grande questão que se coloca é que o tempo corre e com ele continuam a morrer os elefantes tanzanianos, vítimas dos caçadores furtivos mas também das hesitações das autoridades que tardam em cumprir a parte que lhe cabe num processo que castigue de forma incisiva aqueles que se aventurem numa prática que ameaça a fauna animal de um país com um passado de grande tradição na defesa e protecção da sua vida selvagem.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia