Opinião

Falta de chuva provoca catástrofe alimentar

Roger Godwin |

A grave seca que afecta uma parte significativa dos países que integram a África Austral está a provocar situações de uma enorme escassez de alimentos, levando os governos dos Estados mais afectados a decretarem o estado de situação de catástrofe natural como forma de terem acesso a programas humanitários organizados por diferentes instituições internacionais.

De entre os países mais afectados estão o Malawi e o Zimbabwe, onde a falta de alimentos se junta à inexistência de meios financeiros minimamente suficientes para suportar a importação de bens de primeira necessidade em quantidade suficiente para minimizar as crescentes carências das suas populações.
No caso concreto do Malawi o próprio presidente, PeterPutharika, teve que vir a público explicar que o país sofreu uma redução de 12 por cento na sua produção agrícola do último ano, o que significa dizer que dentro em breve a população precisará de uma ajuda humanitária urgente para ultrapassar a sua situação de insegurança alimentar.
No Zimbabwe o cenário também se tem vindo a agravar, não obstante as chuvas que começaram a surgir mas que não são em quantidade suficiente para ultrapassar a situação de enorme carência alimentar.Tal como sucede em relação ao Malawi, também o Zimbabwe vive uma situação de crise financeira que não lhe permite ter os recursos suficientes para fazer frente aos elevados custos da importação de alimentos. A Zâmbia e Moçambique, embora em menor escala que o Malawi e o Zimbabwe, também estão a sentir os efeitos da falta de chuva e enfrentam enormes dificuldades para satisfazer as necessidades alimentares das respectivas populações.
Em anos anteriores, quando situações de seca prolongada também se fizeram sentir nestes mesmos países, foi na África do Sul que eles encontraram uma fonte de ajuda acessível para as suas debilitadas capacidades financeiras. Porém, deste feita a própria África do Sul tem sido também ela vítima desde o ano passado de uma situação de falta de chuva raramente antes vista e que debilitou fortemente as suas próprias capacidades para satisfazer a procurainterna de alimentos.
Desde o início do século que nunca na África do Sul choveu tão pouco, ao ponto de o Governo ter sido obrigado a congelar uma parte muito significativa do volume de exportação de cereais que anualmente fazia para os países vizinhos, sobretudo Moçambique e Malawi.
As Nações Unidas parecem estar atentas a esta situação e o Programa Alimentar Mundial (PAM) anunciou já ter elaborado um primeiro projecto para levar ajuda de emergência ao Malawi. Esse programa de emergência visa levar ajuda alimentar a três milhões de pessoas que se encontram distribuídas por 23 dos 28 distritos até agora mais afectados pela falta de chuvas. A concretização deste projecto só é possível devido ao pedido expressamente feito pelo Governo, uma vez que o PAM só trabalha em consonância com aquilo que é a estratégia das autoridades locais para fazer frente a determinada situação de crise alimentar.
No Zimbabwe, lamentavelmente, a situação é um pouco diferente devido, precisamente, a algumas divergências existentes entre as autoridades locais e as Nações Unidas.Por essa razão, o PAM apenas está a ajudar um número estimado de 730 mil habitantes quando existem dados que deixam perceber que mais de 2,8 milhões de pessoas vivem em situação de insegurança alimentar. No que respeita à Zâmbia e a Moçambique, a informação que existe é de que só agora os respectivos governos aceitaram discutir com as Nações Unidas uma forma articulada de cooperação que permita levar a ajuda alimentar onde ela é mais necessária.
Muitas das vezes, alguns governos ou autoridades regionais nacionais fazem da ajuda alimentar uma arma política, usando o PAM consoante os seus interesses pontuais em relação a determinada situação.
Isto faz com que as próprias Nações Unidas imponham uma série de condições e acordos de salvaguarda para aplicar os seus projectos nos países efectivamente mais necessitados. Para agravar a este panorama, existe ainda o problema das populações deslocadas de um país para o outro e que, com essa movimentação, vão agravar ainda mais situações de extrema preocupação social e humanitária.
Estão neste caso os moçambicanos que, devido à instabilidade militar na região centro do seu país, atravessam a fronteira com o Malawi e vão assim aumentar de modo muito significativo aquilo que são as preocupações com a situação alimentar anteriormente referida.
No distrito de Mwanza, no Malawi, a situação pode mesmo tornar-se catastrófica se nos próximos seis meses não for posto em prática um projecto de ajuda efectiva ao centro de acolhimento de Kapise, especialmente criado pelas autoridades locais para acolher refugiados provenientes do centro de Moçambique.
Este pequeno centro de acolhimento foi concebido e apetrechado para acolher apenas 600 pessoas mas, neste momento, encontram-se lá cerca de três mil que vivem numa situação de grande desespero, não só em termos de carência alimentar como sanitária e social.
Como parece não existir uma solução à vista para resolver o problema interno de Moçambique e que opõe o Governo aos rebeldes da Renamo, o Malawi teme que mais pessoas atravessem a fronteira sem que para isso tenha as mínimas possibilidades de oferecer um tipo de acolhimento minimamente humanitário.

Tempo

você e o jornal de angola

PARTICIPE

Escreva ao Jornal de Angola.

enviar carta

Multimédia