Opinião

Nigéria e a guerra da propaganda política

Roger Godwin |

A Nigéria viveu durante a última semana uma outra situação de “guerra”, desta feita de “propaganda política”, em redor da eventual libertação de uma das 276 jovens estudantes que o Boko Haram havia raptado há mais de dois anos de uma escola localizada em Chibok, a norte do país.

A polémica surgiu quando algumas organizações da sociedade civil vieram a terreno dizer que essa jovem, afinal de contas, não fazia parte do grupo das estudantes raptadas em Chibok argumentando que se tratava, sim, de uma de entre muitas outras raparigas que se encontrava sob cativeiro dos terroristas.
Uma estação televisiva dos Estados Unidos, a CNN, sem citar fontes veio juntar a sua voz e argumentos aos que afirmaram estar-se perante uma manobra de propaganda política desencadeada pelo governo nigeriano para fazer crer junto da opinião pública de que estava, na verdade, no encalço das estudantes de Chibok.
Aos poucos o governo nigeriano foi-se afastando da ideia originalmente invocada de que a jovem agora libertada era uma das referidas estudantes, remetendo-se a uma simples confirmação, não oficial, de que esta jovem estava sob cuidados médicos mas que, aparentemente, o seu estado de saúde era satisfatório. A questão das 276 estudantes que o Boko Haram raptou há dois anos numa escola de Chibok sempre foi um espinho cravado na garganta das autoridades nigerianas, uma vez que o facto de não as terem cosneguido resgatar, depois de todo este tempo, transmitia um claro sinal de que os terroristas ainda seram domos e senhores de um espaço de manobra e de terreno suficientemente amplo para esconder mais de uma centena de pessoas sem que deixassem fugir um mínimo indício em relação à sua eventual localização.
Apesar da ajuda disponbilizada pelos países vizinhos e pelos Estados Unidos, o que é facto é que os meses foram passando e ao fim de dois anos o aparecimento de uma jovem de 19 anos, numa floresta localizada perto de um dos bastiões dos terroristas, acompanhada de um homem, que aparentemente é o seu marido e com um bebé de quatro meses ao colo, deixava transparecer que poderia tratar-se, finalmente, de uma dessas estudantes.
Os militares que a encontraram, sem grandes averiguações, tomaram como certo que essa jovem era uma das estudantes raptadas e disso convenceram o próprio presidente Muhammadu Buhari que foi à televisão anunciar o facto como se ele, na realidade, fosse uma irreversível realidade. E assim se estava quando os pais dessa jovem, confundida como uma das estudantes de Chibok, disseram que afinal de contas ela nunca havia estado na escola assaltada pelos terroristas mas sim na floresta de Sambisa, libertada pelo exército dois dias antes dela ter sido encontrada.
O mais caricato é que a jovem agora recuperada, acompanhada pela mãe, deixou também ela envolver-se nesta confusão tendo mantido um encontro com o presidente Buhari, amplamente coberto pela imprensa de Abuja.
E é aqui que surgem as críticas que estão a ser feitas ao governo nigeriano de que estaria a jogar uma cartada de propaganda política usando o drama desta jovem, indepentemente dela ter sido raptada em Chibok ou em Sambisa, para mostrar algum sucesso na sua luta contra o Boko Haram.
Alegam os críticos que esta jovem precisa de cuidados médicos urgentes e não de ser apresentada como se de um troféu se tratasse para ser mostrado na praça pública com o objectivo de ser um reforço da necessidade que o governo tem em mostrar publicamente os seus êxitos na luta contra os terroristas.
Para esses críticos mesmo que esta jovem, cuja identidade continua por divulgar, fosse uma das 276 raptadas em Chibok não se justifcava todo o alarido que o governo está a fazer uma vez que ela, de facto, não foi libertada pelo exército. O que aconteceu com ela, segundo tudo parece indicar, é que terá conseguido escapar do cativeiro em que estava, supostamente ajudada pelo marido um possível membro do Boko Haram que optou por se libertar a si próprio e à sua família.
O problema que se levanta com este episódio tem a ver com o verdadeiro ponto da situação em relação à luta que o exército nigeriano vem mantendo com o Boko Haram e o relacionamento que daí deriva face às mais recentes declarações públicas das autoridades nigerianas.
No final do ano passado, o presidente Buhari afirmou que o Boko Haram estava na fase irreversível de desmantelamento, sublinhando que aquilo que ainda subsistia eram meras “forças residuais” que lutavam isoladamente pela sua própria vida.
Dois meses depois foi anunciada a abertura de alguns campos para acolhimento de “terroristas arrependidos”, que depois seriam submetidos a programas de reeducação para posterior reintegração social.
Porém, numa cimeira sobre o terrorismo, realizada já este mês em Abuja, surgiu um alerta para o facto do Boko Haram poder estar a reforçar a sua aliança com o chamado “Estado Islâmico” com o objectivo de aumentar as suas acções no norte e nordeste da Nigéria.
Nessa mesma cimeira, países como os Estados Unidos e a Inglaterra aceitaram fazer parte de um grupo nomeado para acompanhar de perto um eventual aumento das acções terroristas na Nigéria e assim impedir que o reforço dessa referida aliança pudesse ter efeitos práticos considerados perigosos.
Estamos, portanto, perante duas realidades diferentes. Uma a que deriva do discurso oficial das autoridades nigerianas, sobretudo do presidente Muhammadu Buahri e uma outra que é aquela que nos surge de factos práticos que deixam perceber que, afinal de contas, o fim do Boko Haram pode não estar tão próximo como seria desejável e muitos queriam fazer crer.
Daí que, muito do que actualmente se está a passar na Nigéria possa configurar a existências de duas guerras. Uma, a que continua a ser travada contra o Boko Haram e a outra que é aquela em que o governo usa a propaganda para conseguir tirar alguns efeitos políticos.
 É evidente que as duas não se conjugam, uma vez que sem o necessário empenhamento e verdade política, muito dificilmente o terrorismo um dia chegará a ser vencido.

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