Opinião

O crivo do voto nas eleições presidenciais do Chade

Roger Godwin |

A população chadiana, em número considerado recorde, foi no domingo às urnas para escolher de entre 13 candidatos aquele que será o seu Presidente da República para os próximos cinco anos.

Entre aqueles que se submeteram ao crivo do voto está o presidente Idriss Deby Itno, que surge novamente como o grande candidato à vitória final, prestando-se desse modo para cumprir num novo mandato e assim consolidar os esforços que vinha fazendo no sentido de retirar o país do grupo dos cinco mais pobres do mundo.
Um dos grandes problemas do Chade, apesar de ser um país que produz petróleo desde 2003, é a sua elevada taxa de analfabetismo, estimando-se que cerca de 70 por cento da população não saiba ler nem escrever.
Este facto tem dificultado imenso a implementação de alguns programas de desenvolvimento, uma vez que o país não possui quadros para lhes dar corpo e assim fazer avançar a economia.
Recentemente, o presidente Deby colocou o combate ao terrorismo no topo das suas prioridades, sobretudo depois de o grupo Boko Haram começar a atacar algumas das suas aldeias e povoações.
Contando com o apoio logístico da Nigéria, o Chade desenvolveu um programa de formação militar, mas luta com problemas para se reequipar, o que faz com que existam muitos generais para poucos soldados e ainda por cima sem o necessário equipamento para darem expressão prática àquilo que aprenderam.
Uma das saídas encontradas tem sido a de incorporar militares chadianos em numerosas missões militares da União Africana e das Nações Unidas, recebendo o país em troca de algum do equipamento que usa para se defender.
O principal rival de Idriss Deby para estas eleições é o líder da oposição, Salem Kebzabo, que durante a campanha eleitoral disse que se vencer irá promover a formação de um Governo de unidade nacional.
Esta declaração foi prontamente interpretada por alguns observadores como uma mensagem para Idriss Deby para este lhe siga o prometido exemplo e abra as portas da governação para os partidos da oposição.
São publicamente conhecidas as profundas divergências entre os dois políticos, sobretudo as que se relacionam com o campo religioso, uma vez que Kebzabo tem sido muito crítico em relação a algumas decisões do Governo que se prendem com as restrições às manifestações públicas de alguns preceitos muçulmanos, como por exemplo o uso do véu islâmico pelas mulheres em actividades públicas.
Um outro opositor que que pode aspirar a ter alguma expressão no número de votos arrecadados é o antigo primeiro-ministro Joseph Djimrangar, um dissidente do partido no poder, o Movimento Patriótico de Salvação.
A sua saída do partido liderado pelo presidente Deby não teve qualquer impacto interno, pelo que ele deverá disputar com Salem Kebzabo a preferência entre o eleitorado que se opõe a Deby e no qual estão muitos dos radicais islâmicos que sonham com uma mudança no poder para poderem dar expressão aquilo que entendem ser a leitura religiosa exacta do que está contido no Corão.
Nos últimos meses o Chade tem sido afectado pelo aumento da contestação pública a algumas opções tomadas pelo Governo e que resultam, fundamentalmente, do facto de as dificuldades económicas terem aumentado devido à significativa quebra da entrada de receitas prevenientes das exportações de petróleo.
Um outro problema, como já foi referido, resulta de algumas restrições que o Governo impôs a expressões religiosas mais radicais e que têm a ver com a necessidade de impedir a ocorrência de actos de terrorismo.
É devido a esta preocupação que o Governo chadiano tem conseguido impedir que o país seja um santuário para os diferentes grupos terroristas que pululam pelos Estados vizinhos, com natural incidência no Boko Haram, que chegou mesmo a declarar o presidente Deby como um dos seus maiores inimigos.
Com a provável reeleição de Idrissi Deby e o gradual desaparecimento do Boko Haram, espera-se que o Chade tenha oportunidade de dar mais atenção à sua situação social e ao trabalho que terá que fazer para ter um melhor aproveitamento dos seus fracos recursos.
A sua proximidade com a Nigéria pode ser um factor determinante para a sua projecção económica se existir, entre os dois países, a preocupação de manterem um relacionamento equilibrado e baseado no interesse mútuo.
Até agora tem-se assistido, por parte da Nigéria, a um aproveitamento da mão-de-obra chadiana barata para a execução de trabalhos que muitos nigerianos se recusam a executar, o que resulta da forma sobranceira como a primeira economia africana olha para os seus vizinhos mais pobres.
O papel que o Chade teve na luta contra o Boko Haram, até agora, não foi devidamente reconhecido pelas autoridades nigerianas, o que tem aguçado uma forte rivalidade entre os dois países que tem impedido a realização de projectos conjuntos.
Talvez com a reeleição do presidente Deby, o seu homólogo nigeriano passe a ter com ele um relacionamento mais baseado na reciprocidade de procedimentos e de ajuda, abrindo assim uma nova oportunidade para que o Chade saia da lista dos cinco países mais pobres do mundo.
Para haver uma certeza sobre quem irá governar o país, ainda terá que se esperar mais duas semanas, prazo que a comissão de eleições precisa para divulgar os resultados finais.

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