Opinião

O dinheiro que alimenta o terrorismo

Roger Godwin|

Uma das melhores formas de combater a progressão do terrorismo, atacando as suas fontes de auto-financiamento, começam finalmente a ter algum efeito prático, havendo informações a darem conta de que, em comparação com o que se passava em meados de 2015, o orçamento mensal do chamado “Estado Islâmico” baixou de 80 para 56 milhões de dólares.

Esta quebra nos rendimentos é o resultado directo dos ataques que a aviação de algumas potências ocidentais tem estado a fazer contra as suas posições e, fundamentalmente, uma consequência do abaixamento do preço do petróleo no mercado internacional.
Dos efeitos que resultam dos ataques desencadeados contra as posições do “Estado Islâmico”, todos temos a noção do que se tem passado, uma vez que a grande imprensa internacional se tem encarregado de divulgar, com algum detalhe, os acontecimentos.
Já o reflexo directo que o abaixamento do preço do petróleo tem na arrecadação de receitas para o Estado Islâmico é um assunto que merece uma apreciação um pouco mais detalhada por envolver uma complicada teia de cumplicidades regionais e internacionais.
Uma das razões que fazem com que o chamado “Estado Islâmico” esteja a receber menos dinheiro com o contrabando de petróleo é dada pelos analistas internacionais ligados a este mercado, que falam de um abaixamento das reservas de crude de 33 para 21 mil barris diários.
Ao ter menos petróleo para vender, pelo facto de algumas das suas posições terem sido atacadas pela aviação dos países envolvidos em acções militares na Síria e no Iraque, o grupo terrorista tem obviamentemenos perspectiva de arrecadar dinheiro.Por outro lado, a pressão militar a que estão actualmente sujeitos dificulta as suas operações nas zonas petrolíferas e complica todo o processo de escoamento do crude até aos locais onde ele é habitualmente transaccionado, com especial incidência junto à fronteira entre a Síria e a Turquia.
Para fazerem frente a este “problema de mercado”, os terroristas deitaram mão de outras alternativas, recorrendo, entre outros expedientes, à cobrança coerciva de impostos à população que se encontra ainda encurralada nas posições por si controladas.
Neste momento, de acordo com avaliações feitas por especialistas no combate ao terrorismo, o petróleo constitui cerca de 40 por cento do total das receitas mensalmente arrecadadas pelo grupo.
O seu orçamento é completado com as verbas provenientes do narcotráfico, da venda de electricidade e das doações que conseguem escapar ao filtro das autoridades internacionais, para lá dos impostos avulsos cobrados sem qualquer tipo de critério.
É evidente que aqueles que dizem lutar, de modo totalmente insano, para erguer um “Estado Islâmico”, tudo tentam fazer para transmitir a ideia de que possuem um mínimo de organização capaz de servir de exemplo aos que se deixem seduzir pela ilusão de viverem numa sociedade onde o islamismo se faz sentir na sua forma supostamente mais pura.
Porém, a realidade mostra que tudo não passa de uma encenação montada para iludir os mais incautos e alimentar a ambição de gente sem escrúpulos que não olha a meios para se encher de dinheiro, pouco se importando se este lhes chega manchado pelo sangue de gente inocente.
Era com esse dinheiro que, por exemplo, ainda se alimentava o terrorismo em África onde grupos como o Boko Haram e Al Qaeda do Magreb se apressaram a reivindicar serem afiliados do “Estado Islâmico” para conseguirem os fundos necessários para adquirirem os meios com os quais continuam a atacar populações inocentes.
Parece cada vez mais evidente o facto do extremismo ter uma forte componente financeira, que é alimentada por gente totalmente despida de humanismo e que usa o fanatismo como uma bandeira agitada para arregimentar pessoas capazes de lhes fazerem os trabalhos mais desprezíveis.
Por isso, é importante que quando se fala numa estratégia global para combater o terrorismo, em África ou no resto do Mundo, se tenha na devida linha de conta a importância que tem a neutralização de todas as fontes financeiras com que ele se alimenta, sobretudo as que se encontram nos territórios que controla e onde abundam determinados recursos naturais.
Ao mesmo tempo, seria também positivo que alguns países recuassem na forma hipócrita como se relacionam com os terroristas e dessem de si mesmos uma imagem digna para que não se possam confundir como meros grupos de contrabandistas.
Nesta linha está, sobretudo, a Turquia e a Arábia Saudita, frequentemente suspeitos de manterem uma discreta relação de conveniência com uma série de grupos radicais islâmicos internos que pouco se distinguem daqueles que praticam e apoiam o terrorismo um pouco por todo o mundo.
Apesar de distante do epicentro do terrorismo, o continente africano continua a ser um dos seus principais alvos, até pelo facto de, como é rico em recursos naturais, ser uma parte apetecível para juntar ao sonho de criação do tal “Estado Islâmico”.

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