Opinião

Preocupações acrescidas no Sudão do Sul

Roger Godwin |

Ao não cumprir, mais uma vez, a promessa de viajar para Juba e assumir o cargo de vice-presidente num Governo de transição, Riek Machar lançou uma nova onda de preocupações em relação ao futuro próximo do Sudão do Sul.

Riek Machar, líder dos rebeldes que se opõem pela força das armas ao presidente Salva Kiir, tem sido reincidente em não cumprir as promessas que faz e ao abrigo das quais têm sido rubricados vários textos para uma reconciliação entre as forças divergentes.
Apresentando um leque de variadas razões, conforme a circunstância – e suspeita-se que também consoante a sua inspiração de momento – a verdade é que Riek Machar tem feito frustrar diversos acordos de paz depois de muitas promessas de empenhamento na colocação de um ponto final neste prolongado conflito.
Este novo adiamento no cumprimento da palavra dada, o terceiro no espaço de seis meses, fez já soar as campainhas de alarme a nível internacional, tendo mesmo levado a mediação a reconhecer que o “acordo está em perigo”.
Este último acordo de paz havia sido assinado em 26 de Agosto do ano passado em Addis Abeba e, tal como os anteriores, previa a criação de um Governo de transição integrado por rebeldes e membros das forças ligadas ao Governo e cuja principal missão seria a de preparar eleições num prazo máximo de dois anos.
Tal como os anteriores acordos, também este previa para Riek Machar o cargo de vice-presidente, aliás o mesmo que ele ocupava quando decidiu romper com o presidente Salva Kiir na denuncia da tentativa de golpe de Estado.
Apesar de alguns dos seus porta-vozes garantirem que ele continua empenhado no processo de paz e que só não cumpriu a data prevista para o seu regresso a Juba por meras razões “administrativas”, a verdade é que existe a forte suspeita de que ele pretenda continuar no estrangeiro enquanto durar a vigência do tal Governo de transição.
O mesmo pensa o próprio presidente Salva Kiir que só depois de muito pressionado aceitou assinar este último acordo de 26 de Agosto de 2014 e mesmo assim numa cerimónia separada daquela em que Riek Machar rubricou o documento.
Na altura, Salva Kiir disse que não dava nada por este acordo e reiterou a sua convicção de que o seu rival nunca entrará num Governo de transição porque, no seu entender, “o que ele quer mesmo é chegar ao poder por força das armas”.
Tanto para Salva Kiir como para as Nações Unidas, o regresso de Riek Machar a Juba é uma condição incontornável para que o processo de paz possa ser encarado com alguma seriedade, sendo inaceitável que ele fique no estrangeiro e pessoalmente descomprometido com aquilo que vier a ser acordado.
Os Estados Unidos, que chegaram a ser apontados como um dos aliados de Machar, já manifestaram estar “muito preocupado” com o futuro do Sudão do Sul, enquanto a União Africana não escondeu a sua “inquietação” pela sucessão de falhanços nos acordos que têm sido assinados pelos beligerantes.
Do lado dos rebeldes o argumento invocado para este novo adiamento do regresso de Riek Machar a Juba prende-se com dificuldades que a sua delegação teria sentido para obter autorizações para sobrevoar determinados países (não especificados) e que seriam atribuídas ao facto de entre a delegação estarem algumas pessoas com mandatos internacionais de captura.
A autoridades de Juba, porém, têm um outro entendimento e avançam que a razão que terá levado Riek Machar a não regressar agora ao país está relacionada com a tentativa que fez em ser acompanhado por mais 200 militares portadores de armas não contempladas neste último acordo.
Segundo o documento assinado em Agosto do ano passado, os rebeldes poderão incorporar 1.370 polícias e soldados armados, enquanto para as forças leais a Salva Kiir estão disponibilizados 3.420 lugares para os dois ramos do aparelho militar de transição.
Esta diferença de números é frequentemente apontada por diferentes analistas como sendo a verdadeira razão que pode explicar todos os falhanços no cumprimento dos acordos uma vez que Riek Machar tem usado vários artifícios para meter mais homens armados na capital.
A mediação, por seu lado, tem evitado pronunciar-se sobre este assunto, optando por tentar negociar nos bastidores uma possibilidade de entendimento entre as autoridades do Sudão do Sul e os rebeldes de modo a que a viagem se possa efectivamente concretizar.
Acontece que Salva Kiir não aceita nem sequer ouvir falar numa distribuição mais equitativa do número dos efectivos que deverão constituir a Polícia e o Exército que irão participar na preparação das próximas eleições.
Isto tem sido repetidamente dito pelas forças do Governo e nem mesmo uma ameaça de adopção de sanções por parte das Nações Unidas as fez recuar, levando mesmo a que radicalizassem ainda mais o seu discurso e esmerassem as medidas de vigilância em relação à eventual delegação que os rebeldes poderão enviar para a capital do país.
Deste modo, e enquanto todos esperam pela chegada de Riek Machar a Juba, a situação humanitária da população vai-se degradando apesar do vizinho Sudão, finalmente, ter decidido abrir as fronteiras a alguns grupos de refugiados.
De sublinhar, mais uma vez, que este conflito eclodiu em Dezembro de 2013, depois de o presidente Salva Kiir demitir Riek Machar acusando-o de estar a preparar um golpe de Estado.
Até agora terão morrido milhares de pessoas, havendo ainda a registar a existência de mais de 2,5 milhões de deslocados.

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