Opinião

Somália a caminho da sonhada estabilidade

Roger Godwin |

Os últimos sucessos averbados pelas forças militares somalis contra os terroristas do grupo al-Shabab são um sinal de que a situação no país caminha rapidamente para a estabilidade, o que permite ao Governo, com a ajuda das Nações Unidas e de outras organizações internacionais, levar por diante o seu programa conjunto de repatriamento dos milhares de refugiados que se encontram espalhados pelos países vizinhos.


A decisão de arrancar com o projecto de repatriamento, que apenas esperava pelo necessário financiamento das organizações internacionais, vai ao encontro daquilo que era o desejo repetidamente expresso pelo Quénia de encerrar até ao fim do ano todos os numerosos campos de acolhimento que tem espalhados pelo país.
As razões para esta decisão prendem-se, por um lado, com questões financeiras, mas também com o facto desses campos serem um manancial de problemas sociais e militares que resultam da infiltração que neles vinha sendo feita por membros do al-Shabab que entravam no país misturados com os refugiados.
Na realidade, e sem grande alarido, a Somália, desde Janeiro, já acolheu mais de sete mil pessoas que, voluntariamente, aceitaram regressar ao país, na sua maioria provenientes de diferentes países vizinhos.Outros seis mil recorreram ao apoio do Alto Comissário das Nações Unidas para os Refugiados (ACNUR) para desse modo responderem ao apelo do Governo somali e assim voltarem ao país.
A intenção do Governo da Somália é a de fazer acompanhar o avanço das suas forças armadas contra os principais redutos do al-Shabab da recolocação da população, de modo a assim evitar que os terroristas possam reocupar as posições de onde agora estão a ser expulsos. Para que essa estratégia tenha sucesso é preciso que as organizações internacionais, sobretudo as Nações Unidas, disponibilizem as verbas necessárias e já prometidas para que os programas de reassentamento possam ser efectuados de modo continuado e absolutamente sustentado.
Nos últimos dias, de modo peremptório, as forças somalis têm vindo a somar uma série de êxitos no avanço que estão a fazer contra algumas das principais zonas onde o al-Shabab se encontrava.
Um desses avanços, talvez o dos mais significativos, ocorreu no início desta semana na região de Shabelle, localizada a 60 quilómetros de Mogadíscio, quando vários dirigentes do grupo terrorista acabaram por ser detidos, sem oferecerem resistência, depois de vários dias de cerco.
Nessa operação levada a cabo pelas forças especiais acabaram também por ser libertadas vários civis que se encontravam reféns dos terroristas, diversas armas e munições. No princípio deste mês o grupo terrorista confiava que estava a conquistar terreno, tanto na Somália como no Quénia, desprotegendo por isso um aspecto que até então tinha sido fundamental para o seu sucesso e que se relaciona com a blindagem que conseguia fazer às tentativas do Governo infiltrar agentes no interior da sua estrutura dirigente.
Esses agentes, aos poucos, foram denunciando alguns dos principais planos dos terroristas, o que facilitou a neutralização dos seus principais dirigentes nos próprios locais onde se acoitavam.
É assim que nas últimas duas semanas apenas se ouve falar do al-Shabab através de relatos que são feitos para anunciar, com as devidas provas, os insucessos que vem averbando e ameaçam a sua permanência nas principais zonas de influência militar.
As mesmo tempo, no vizinho Quénia e com o anúncio da decisão de encerrar os referidos campos de refugiados, foram também desenvolvidas diversas acções militares junto à fronteira com a Somália, de modo a reduzir o espaço de manobra do grupo terrorista e assim evitar que o al-Shabab continuasse a ter uma “porta das traseiras” aberta para uma eventual “saída de emergência” da Somália.
Neste momento, o que ainda falta ao Governo somali para tornar ainda mais vincado o sucesso deste seu avanço contra o grupo al-Shabab é a consolidação do apoio financeiro e logístico que está a receber das Nações Unidas mas que ainda é manifestamente insuficiente para os desafios que se avizinham. Desde logo, o financiamento ao projecto de repatriamento dos refugiados e do seu apoio dos programas de realojamento nas suas zonas de origem, é um aspecto decisivo e determinante para que tudo corra conforme está planeado pelo Governo e pelas próprias Nações Unidas.
A Somália, contrariamente ao que sucede com outros países também afectados pela praga do terrorismo, não tem qualquer tipo de acordo individualmente estabelecido com países ocidentais para a sua protecção ou defesa.
Por essa razão, tem sido às suas próprias custas que o Governo da Somália tem financiado todo o esforço militar para cumprir a parte que lhe toca – e que é muito, tendo em conta a sua debilidade financeira – nos protocolos estabelecidos com as Nações Unidas para a colaboração, no terreno, uma força multinacional cujo mandato nunca foi claramente cumprido.
Por isso, fica claro que todo este esforço do Governo pode cair por terra se lhe faltar o apoio económico capaz de fazer andar a componente social que envolve o realojamento da população que mais sentiu na pele os efeitos do terrorismo.
Se isso suceder, corre-se o risco de esfumar-se todo um trabalho conjugado entre as Forças Armadas da Somália, as organizações internacionais que lidam com os refugiados e as próprias Nações Unidas, como tal, para dar um golpe forte, e porventura decisivo, no al-Shabab, que é um dos mais importantes grupos terroristas a operar no continente africano.

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