Opinião

Sudão do Sul conquista o direito à esperança

Antonio Rodriguez | AFP

O Sudão do Sul, finalmente, acaba de conquistar o direito à esperança em dias melhores e a deixar para trás os ventos de guerra e das incertezas que o vinham atormentando nos últimos três anos.

Esta esperança começou a sorrir quando o líder dos rebeldes, Riek Machar, aterrou ontem no aeroporto de Juba onde era aguardado por um numeroso grupo de diplomatas estrangeiros e de ministros seguindo de imediato para a cerimónia onde tomou posse como vice-presidente da República, o mesmo cargo que curiosamente ocupava quando o país entrou em guerra em Dezembro de 2013.
Na sua chegada a Juba, acompanhado por alguns homens da sua confiança e protegido no aeroporto por 100 soldados que farão parte da sua escolta e por elementos das forças de manutenção de paz das Nações Unidas, Riek Machar disse estar “totalmente comprometido” com o acordo mediado pela comunidade internacional.
Esta declaração, de modo prático, representa um compromisso público importante, mas que não esconde o facto de muito ainda haver para ser feito de modo a que este acordo possa ser considerado definitivo e, como tal, esteja em condições de entrar imediatamente em vigor.
O próprio Riek Machar, nas poucas palavras que proferiu à sua chegada a Juba, deixou perceber isso mesmo ao dizer que estava disposto a continuar a trabalhar “arduamente”para que o acordo possa começar a ser implementado o mais rapidamente possível.
Um desses assuntos pendentes e que pode retardar a entrada em funcionamento do acordo, tem a ver com a composição numérica e qualitativa da escolta do líder dos rebeldes, havendo uma enorme diferença entre o que está escrito no acordo e aquilo que Riek Machar pretende que seja feito.
Os acordos dizem que os rebeldes terão direito a enviar para o exército e para a polícia pouco mais de mil elementos armados, dos quais sairão os efectivos da referida escolta.
Acontece que o líder rebelde quer ter uma guarda armada de 200 elementos, fora do grupo que enviará para as fileiras do exército e da polícia, tendo sido esta diferença que terá estado na base do último adiamento para a sua chegada à cidade de Juba.
Depois de intensas negociações telefónicas, os rebeldes aceitaram enviar na segunda-feira a Juba o chefe das suas forças armadas, Simon Dual, acompanhado de uma centena de soldados armados.
Na altura, o general Dual afirmou que estes 100 soldados formariam a escolta do líder rebelde e que haviam chegado um dia antes, precisamente, para preparar as condições de segurança para a sua chegada.
Os homens do presidente Salva Kiir, por seu lado, tentaram até à última hora fazer com que esses soldados fizessem parte do grupo que iria integrar as forças militarizadas alegando que a questão da escolta do líder dos rebeldes era um assunto que deveria ser discutido numa fase posterior.
Mantendo uma firme intransigência, o líder dos rebeldes ameaçou fazer regressar a AdisAbeba o seu chefe militar e os 100 soldados que o acompanhavam caso não ficasse definida, desde logo, a separação deste processo da formação das forças militarizadas.
Perante o impasse e sob uma forte pressão internacional o governo decidiu dar “luz verde” e, dessa forma, Riek Machar aceitou regressar e negociar no terreno as questões que ainda se encontram pendentes e que estão relacionadas, para lá das forças militarizadas, essencialmente, com os cargos governamentais a serem preenchidos irão dar corpo ao governo de transição que, a partir do momento da sua posse, tem um prazo de dois anos para preparar eleições.
Actualmente aquilo que muitos se interrogam é de que terá servido estes três anos de guerra civil, uma vez que Riek Machar vai reocupar o cargo que então desempenhava e a desconfiança entre ele e o presidente Salva Kiir tem índices muito mais elevados do que nessa altura.
Na verdade fica difícil perceber o que efectivamente mudou desde 2013 para que Salva Kiir e Riek Machar possam voltar a conviver num governo, mesmo que rotulado de “transição”.
Aquilo que na altura os separou foi uma total perda de confiança mútua, “apimentada” com informações disponibilizadas pelo ocidente e que davam conta da intenção de Riek Machar desferir um golpe de Estado.
Essa desconfiança, com o rebentar da guerra civil, foi-se agravando de modo gradual ao ponto de ter feito frustrar duas anteriores tentativas para a assinatura de um acordo semelhante que agora se prepara para entrar em vigor.
Aparentemente nada mudou a não ser, talvez, a pressão da comunidade internacional que se tem empenhado – muitas vezes de forma pouco habilidosa – nas tentativas de devolver a paz ao mais jovem país do mundo.
Os próximos dias serão decisivos para se ver até que ponto este acordo tem pernas para andar, tudo dependendo de quanto os dois homens fortes do país estarão dispostos a ceder a favor da paz.
O facto de Riek Machar estar em Juba, para já, é um dado extremamente positivo por representar um gesto de “boa vontade” política, mas que vai exigir que o presidente Salva Kiir dê, também ele, um passo em frente de modo a que este conquistado direito à esperança não se esfume por força de interesses que nada têm a ver com os do país.

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