Opinião

Uma crise política à vista no Gabão

Roger Godwin |

O pedido de demissão acabado de apresentar pelo presidente da Assembleia Nacional do Gabão, Guy Nzouba Ndama, deixa no ar a forte possibilidade de se estar perante o prelúdio de uma crise política que pode perturbar seriamente o clima de preparação das próximas eleições presidenciais previstas para meados deste ano.

Este pedido de demissão, feito no final de mais uma sessão plenária do Parlamento que havia decorrido com toda a normalidade, apanhou a classe política gabonesa totalmente de surpresa e levanta a forte possibilidade de se tratar de uma jogada política de promoção pessoal para uma eventual candidatura ao cargo de Presidente da República.
Nos últimos meses, Guy Ndama havia proferido algumas declarações, que na altura quase passaram despercebidas, onde lamentava aquilo que ele diz ser “a falta de respeito” que o poder estava a ter em relação à Assembleia Nacional.
A gota de água que terá feito transbordar a paciência do antigo presidente do Parlamento do Gabão, pode ter ocorrido nesta terça-feira, quando as instalações do órgão foram como que invadidas por elementos da polícia de investigação criminal que detiveram o tesoureiro da instituição para um interrogatório relacionado com uma viagem que ele havia efectuado recentemente ao estrangeiro e durante a qual teria, supostamente, feito despesas que não conseguiu justificar.
Aos 70 anos, Guy Ndama é apontado como sendo o líder de uma facção que se prepara para romper com a direcção do Partido Democrático Gabonês para apresentar uma candidatura independente nas eleições presidenciais que vão decorrer no segundo semestre deste ano.
Nomeado em 1997 para o cargo de presidente do Parlamento, este veterano da política gabonesa foi um aliado muito próximo do falecido Presidente Omar Bongo, mas terá entrado recentemente em rota de colisão com Ali Bongo Ondimba que, por sua vez, já anunciou que se vai apresentar para tentar conquistar um segundo mandato.
Há duas semanas, três influentes membros do Partido Democrático Gabonês foram expulsos do Parlamento depois de terem anunciado a formação de uma tendência a que deram o nome de “Herança e Modernidade”.
Esses três elementos, muito próximos de Guy Ndama, são também acusados de estarem a preparar uma candidatura alternativa a Ali Bongo, a quem acusam de ter feito um trabalho “calamitoso” durante os anos em que está no poder.
A verdade é que, apenas no espaço de uma semana, a tendência criada no seio do Partido Democrático Gabonês contou com a adesão de mais 15 parlamentares e de antigos ministros, entre os quais o tesoureiro, que continua detido para explicar onde gastou o dinheiro que levou para o estrangeiro.
Tudo isto deixa perceber a forte divisão interna no seio do partido do Presidente Ali Bongo e a possibilidade muito real do país poder entrar numa fase de aguda crise política que vai ter reflexos directos na preparação das próximas eleições presidenciais.
Se em 2015 alguém falasse na possibilidade do Presidente Ali Bongo ter a sua reeleição em risco, seria facilmente acusado de louco, mas agora, com todos estes desenvolvimentos, as forças no poder sentiram já a inadiável necessidade de apertar o cerco aos contestatários para que estes sejam afastados dos lugares de decisão política de modo a não terem qualquer tipo de protagonismo.
Porém, com a demissão apresentada pelo presidente do Parlamento, não só pelo seu prestígio a nível nacional como pela influência que tem no seio do partido no poder, as coisas podem mudar de figura, sobretudo se atrás dele forem outros “pesos pesados” que não concordam com algumas das opções políticas que foram assumidas por Ali Bongo.
A pouco menos de seis meses da realização das eleições presidenciais, a política gabonesa entra numa fase de grande agitação, esperando-se que as instituições democráticas sejam capazes de travar eventuais excessos verbais ou físicos de modo a não comprometerem a democracia.
Por tradição, o Gabão habituou-nos a resolver tranquilamente as suas divisões internas, sem grandes convulsões e no respeito pela salvaguarda daquilo que são os interesses nacionais.
A verdade, porém, é que Ali Bongo tem uma personalidade diferente da de seu pai, Omar Bongo, o que não quer dizer que esteja mais vocacionado para a assumpção de posições mais musculadas.
Trata-se de duas pessoas diferentes e vistas pelo seu povo de modo igualmente distinto, com Ali Bongo a nunca ter conseguido distanciar-se da “sombra” que o seu pai criou e cultivou de modo bastante cauteloso graças à adopção de medidas políticas que colocaram o Gabão na linha da frente do desenvolvimento económico e social.
Independentemente de quem vier a vencer as próximas eleições presidenciais, existe a certeza de que o Gabão não voltará a ser o que já foi, uma vez que nunca a oposição à família Bongo teve a expressão que agora tem.

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