Opinião

Zimbabwe de regresso à sua moeda

A persistente crise que afecta o Zimbabwe e que se agrava quase que a cada dia que passa, obrigou o Governo a preparar o caminho para reintrodução no circuito financeiro nacional de uma moeda própria, acabando assim com a prolongada “dolarização” da sua economia.

Embora neste momento ainda se não saiba qual a designação dessa moeda, nem quando o anúncio será oficialmente feito, a verdade é que essa possibilidade ganha cada vez mais consistência, ao ponto de já estar a ser encarada como uma inevitabilidade.
A “ponta do véu” em relação a este assunto, de grande melindre, não só para os agentes económicos como para todos quantos vivem no país, começou a ser levantada no final de semana quando principiaram a surgir na imprensa local declarações de responsáveis ligados ao sector bancário a admitirem a possibilidade do fim da “dolarização” que vigorava, praticamente, desde 2008.
O próprio Presidente Robert Mugabe, contrariamente ao que dantes sucedia, numa recente declaração pública não desmentiu essa possibilidade, antes dizendo que iria ser feito aquilo que melhor poderia servir os interesses do país.
Estes rumores, entretanto, foram-se avolumando, ao ponto de a população ter começado já a acorrer em massa às caixas electrónicas para proceder ao levantamento de dólares norte-americanos, acautelando, desse modo, os efeitos de um rápido anúncio oficial sobre a entrada em vigor de uma nova moeda nacional.
Em reacção, e para evitar o esvaziamento dos cofres dos bancos, as caixas electrónicas passaram desde ontem a racionar a disponibilização de dinheiro vivo, originando o receio entre a população e a inquietação no seio dos agentes económicos, com muitos locais onde se podia pagar as despesas com cartão electrónico a exigirem o pagamento em moeda física.
Neste momento, restam poucas dúvidas de que será anunciada muito em breve a entrada em no circuito financeiro do país de uma moeda nacional de referência que retirará o Zimbabwe de uma situação de excepção que durou praticamente durante os últimos oito anos.
Foi em 2008, no rescaldo de umas eleições cujos resultados não foram aceites pela comunidade ocidental, que o país optou pelo fim do dólar zimbabweano, passando a vigorar no país o dólar norte-americano como única moeda de referência e com a qual eram feitas as contas para o Orçamento Geral do Estado (OGE).
Esta foi a forma como o Governo de Robert Mugabe decidiu responder à imposição de um vasto pacote de sanções económicas por parte da União Europeia e dos Estados Unidos, claramente destinadas a provocar embaraços ao Governo saído de eleições.
Essas sanções, que vigoram até hoje, destruíram totalmente a economia do país e levaram ao aniquilamento do seu sector industrial, agravando por consequência a vida das populações que os países que impuseram as sanções diziam estar a querer defender. A decisão de reintrodução da moeda nacional não é nova, mas tem sido sucessivamente adiada devido ao facto de a União Europeia e os Estados Unidos, por várias vezes, terem deixado transparecer a possibilidade de aligeirarem ou mesmo de suspenderem essas sanções.
Porém, como essa possibilidades não se concretizaram e o país a atravessar hoje uma situação de enorme gravidade devido à prolongada seca que quase paralisou o seu principal sector produtivo, a agricultura, não resta outra alternativa ao Governo senão a de tomar medidas drásticas para evitar o total colapso económico do país. Para o Governo não se trata de uma decisão fácil de tomar e muito menos de anunciar, pois vai de encontro a todas as promessas anteriormente feitas pelos responsáveis do sector económico do país.
O Presidente Mugabe, por sua vez, nunca se envolveu demasiado na discussão em relação ao regresso ao sistema de moeda nacional, usando de um completo pragmatismo político que, contudo, não o impediu de demitir um governador do banco central que prometeu nunca aceitar uma “marcha atrás” na decisão da “dolarização” da economia.
Neste momento, enquanto o Governo não anuncia aquilo que na prática parece já estar feito, reina uma grande desconfiança no Zimbabwe pelo receio de um regresso a 2008, altura em que a desvalorização diária da moeda chegava a ser de mil por cento.
Nessa ocasião a venda ilegal de dólar abastecia uma parte do sector de importação, o que tornava os produtos mais caros e inacessíveis a quem apenas tinha recurso à moeda nacional. Resta saber como vai a população e os próprios agentes económicos reagir a esta inevitabilidade, sendo igualmente previsível uma posição que terá tanto de forte como de hipócrita por parte daqueles que tudo fizeram para empurrar o Zimbabwe para a situação em que hoje se encontra.
Ao Governo e ao Presidente Mugabe resta apenas aguardar pela oportunidade política para dar ao país a notícia que este já espera, mas cuja maioria da população, certamente, não queria ouvir.

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