Víctor Jara e

Luis Alberto Ferreira |
24 de Maio, 2015

A ignomínia que melhor define o modus colonial britânico espelha-se em dois momentos lacerantes do protagonismo de Margaret Thatcher: a intervenção armada nas Malvinas e a protecção facultada em Inglaterra ao genocida Augusto Pinochet.

Estes dois momentos da História recente da América Latina fundam-se na lógica anglo-saxónica das alianças espúrias que “legitima” a cumplicidade activa do antigo colonizador com as plutocracias da botifarra, da tortura e do esbulho. Os “Chicago Boys” de Pinochet ilustram, até na vertente económica, o lado também ominoso de certas predicações neoliberais do “capitalismo selvagem”. 
Rotinados na apropriação de alheios destinos, a Inglaterra e os Estados Unidos igualaram-se na gestão, sempre malsoante, de tais “convergências”. No Chile como na Argentina, no Uruguai como no Paraguai ou na Guatemala, na Nicarágua, na Colômbia, no Perú. As similitudes comportamentais manifestaram-se, com rara evidência, no Chile e na Argentina. Henry Kissinger, judeu alemão que aos 20 anos obteve nos Estados Unidos a cidadania norte-americana, escancarou portas para o assalto que levou Pinochet ao poder e fez da República do Chile uma hórrida ditadura. A siderúrgica Margaret Thatcher sacrificou 255 militares britânicos, em 1982, na contraditória guerra das Malvinas (Falklands), para conseguir a reeleição em 1983. No entanto, até então havia fechado os olhos às monstruosidades cometidas pela Junta Militar argentina. Jorge Videla estava no poder desde o golpe de Estado de 1976 e Londres “apreciava” a “normalidade” nas relações com Buenos Aires.
O cinismo “ocidental”  revelar-se-ia tentacular  quando o Nobel da Paz foi atribuído ao  binómio constituído por Henry Kissinger, confidente de Richard Nixon, e Lê Dúc Tho, que em 1945 se juntara a Ho Chi Minh e Nguyen Giap para a criação da Liga Revolucionária do Vietname. Desconcertante, o argumento desembainhado para explicar o Nobel atribuído a Kissinger, cúmplice de Augusto Pinochet: “o seu papel na consecução do cessar-fogo na guerra do Vietname”. (Acontece que os norte-americanos foram derrotados e bateram em retirada aparatosa do território vietnamita). Como se esperaria, Lê Dúc Tho recusou o “prémio”. Fê-lo com a superior galhardia dos vencedores sem mácula.
A ideologia não antagonizava as convicções “básicas” de Margaret Thatcher e do criminoso argentino Jorge Videla. Eles tinham, por acaso, a mesma idade, dado que ambos nasceram em 1925. Os ingleses ocupavam as Malvinas desde 1833, altura em que no Chile, não longe da Argentina, se vivia o rescaldo da guerra civil de 1829-1830, início da era conservadora só interrompida quando Salvador Allende chegou ao poder com o seu projecto socialista. Allende terá menospreciado os antecedentes históricos do Chile. (Em 1829, o regime legitimado pelo Congresso foi demolido por uma “revolução conservadora”, na realidade um golpe de Estado que mobilizou tropas mercenárias e “aportaciones” financeiras de mercadores neocoloniais. E em 1851, a guerra civil no Chile resultou da tentativa de derrube do presidente Manuel Montt e erradicação da Constituição de 1833).
Ingleses e norte-americanos sempre revelaram insensibilidade cognitiva quando a História lhes sugeriu que tentassem, ao menos, perceber a origem dos conflitos na América Latina. A essas raízes foi o uruguaio Eduardo Galeano, há pouco tempo falecido, extrair os cimentos da sua principal obra de referência, “As Veias Abertas da América Latina”. Galeano despede-se da vida no preciso momento em que se sabe da descoberta e captura, nos Estados Unidos, do torturador e assassino de Víctor Jara, lendário cantautor, director teatral, activista político e um dos grandes subescritores dos ideais do presidente Salvador Allende. Se a atribuição do Nobel da Paz a Henry Kissinger é uma das farsas contemporâneas de maior pulsão tragicómica, a tardia descoberta do torcionário Pedro Barrientos em território norte-americano diz muito da falácia “globalizante” das relações no hemisfério. Aquilo que se convencionou chamar “reparação dos crimes cometidos” pelas ditaduras chilena e argentina é mais uma mistificação anglo-saxónica. A estratégia dos dois centros nevrálgicos, Washington e Londres, visando as influências regionais na política e na economia, despreza por igual direitos humanos e memórias colectivas. O diabolismo táctico de Henry Kissinger explica por si só a longevidade perpetradora da sua carreira. Kissinger chegou à magistratura de Richard Nixon com uma folha de serviços, já, de longo curso, desde Eisenhower até Gerald Ford. Secretário de Estado, conselheiro, olheiro, confidente, Kissinger armadilhou no Chile e na Argentina os mecanismos que poderiam ter conduzido muito mais cedo à condenação dos grandes genocidas.  Augusto Pinochet, alérgico a autoscopias de ordem moral, mereceu de Margaret Thatcher esta calibragem: “um amigo que ajudou a combater o comunismo”.
Detido Pinochet em Londres pela Scotland Yard, o malfeitor chileno que havia apoiado a Inglaterra na guerra das Malvinas contou com a “amiga” (Thatcher) para obter a liberdade e regressar ao Chile. A recente captura, nos Estados Unidos, do assassino de Víctor Jara, surge involucrada também das cumplicidades omnívoras de ingleses e norte-americanos. Pedro Barrientos, antes de assassinar Víctor Jara, sujeitou o activista às mais ignominiosas barbaridades. As sessões de tortura incluíram a dilaceração, à martelada, das mãos do musicólogo, aos gritos de “Você é aquele maldito cantor, não é?”. Barrientos, o monstro criado à sombra de Pinochet, assassinou chilenos, brasileiros, espanhóis, argentinos. As vítimas da quadrilha de Barrientos contam-se por dezenas de milhares de pessoas, entre mortos e desaparecidos.  O tribunal norte-americano agora chamado a intervir autorizou a abertura do processo contra Barrientos. Contudo, não obstante a clara definição dos actos cometidos pelo terrível torcionário chileno, o mesmo tribunal rejeitou a classificação de crime de lesa-humanidade invocada por familiares de Víctor Jara e organizações cuja postura “As Veias Abertas da América Latina” ajudam a compreender. Repousam juntos, por fim, Galeano e Víctor Jara.

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