Opinião

As diferenças da eficácia na Síria

José Goulão |

Depois de ter afirmado pelo menos 16 vezes que jamais enviaria tropas para o terreno na Síria, o Presidente dos Estados Unidos decidiu remeter um grupo de operações especiais para o norte deste país do Médio Oriente.

Pouco tempo antes, a mesma ordenança do complexo militar e industrial transnacional dera outro dito por não dito, ao anunciar que afinal as tropas da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) vão continuar a ocupar o Afeganistão.
A explicação foi a mesma para ambos os casos, também escutada da mesma boca não 16 mas algumas centenas de vezes: ajudar os “moderados” contra os terroristas.
Especula-se muito sobre o que estará por detrás destas mentiras da Casa Branca, também apresentadas como “mudanças de opinião” ou, de acordo com os porta-vozes do Presidente Barack Obama, decisões que em nada violam os compromissos anteriores, uma vez que se trata de tropas que não irão entrar em combate.
Deixemos as especulações para os especuladores – e eles não faltam, usando mil e uma línguas – e vamos a alguns factos no terreno, nos ares, ou até no ciberespaço, para sermos abrangentes.
Os agentes de “operações especiais” dos Estados Unidos – digamos também da OTAN, sem receio de cometer qualquer imprecisão – irão para o Norte da Síria, prevendo-se que possam desenvolver acções transfronteiriças no que resta do Iraque, havendo consultas com o governo de Bagdade sobre essa possibilidade. No Norte da Síria, a parceria expansionista formada pelos Estados Unidos e Israel, em colaboração com o regime fundamentalista turco, está a criar um “Estado Curdo” em território árabe, a exemplo do que fez através da invenção do “Sudão do Sul”, com os excelentes resultados humanitários à vista de todos.
A amputação do território sírio pelo norte é um velho objectivo de Israel – por questões “militares e de segurança”, como sempre – e está em marcha através da colonização curda, a partir do Iraque e da Turquia, de um território que excede em muito o da minoria de curdos na Síria.
A violência contra os não-curdos já começou, tendo entre as vítimas os cristãos assírios, mas presume-se que a chegada dos tropas especiais da OTAN não seja para evitar, mas sim para reforçar a partição da Síria com carácter de urgência, no âmbito da bem conhecida política de factos consumados.
No entanto, recorrendo a um teórico benefício da dúvida, poderá admitir-se que o lançamento de tropas no terreno tenha como objectivo reforçar o suposto combate norte-americano contra o terrorismo do Estado Islâmico, ou Daesh, ou ISIS. Será?
O que acrescentará um grupo de operações especiais a um esforço militar tão empenhado da OTAN que em mais de um ano deixou incólume a estrutura terrorista?
Sem tropas no terreno, em pouco mais de um mês e em 1.400 saídas, as forças russas destruíram 1.600 alvos dos terroristas islâmicos, entre os quais 249 postos de comando, 51 campos de treino, 131 depósitos de munições e combustíveis, 768 bases terrestres, além de terem eliminado 28 altos quadros mercenários.
A diferença das eficácias anti-terroristas é esmagadora.
Outra pista, esta de grande impacto na relação mundial de forças, pode também explicar as botas norte-americanas no teatro de guerra sírio.
Numa operação que deixou o Pentágono e os gendarmes da OTAN estupefactos, a Rússia cegou e ensurdeceu as comunicações militares norte-americanas e terroristas num raio de 300 quilómetros a partir de um ponto a norte da cidade síria de Latáquia, através de um sistema de interferências que neutralizou as comunicações entre satélites, aviões, drones, bases militares – incluindo a de Incirlik, na Turquia, usada pela OTAN – e esquadrões de blindados.
Um golpe em cheio no sistema nervoso operacional atlantista. Dando agora uma expressão muito mais vasta à neutralização do destroyer USS Donald Cook, então em missão no Mar Negro no Outono de 2014, as interferências russas nas comunicações militares dos terroristas e seus patrões da OTAN na Síria permitiram a Damasco reconquistar vilas e aldeias numa área de 300 quilómetros quadrados e protegeram as recentes incursões de aviões russos na Turquia, onde foram identificar os campos de treino de grupos terroristas, Estado Islâmico incluído.
Percebe-se agora melhor a irritação de Ancara e Washington com essas operações.
Somado ao êxito dos disparos de 26 novos mísseis de tipo cruzeiro russos a partir do Mar Cáspio, com 100 por cento dos alvos atingidos, o dispositivo de interferência nas comunicações accionado por Moscovo, capaz de paralisar um sofisticado exército desactivando-lhe o sistema nervoso, coloca novos dados nos mapas das guerras modernas, não apenas na Síria mas em termos globais.
A OTAN deixou de ser dona e senhora nos conflitos convencionais, e não apenas porque os seus tanques se atascam pateticamente em manobras intimidatórias nas areias das praias do Alentejo.
Posto isto, as botas norte-americanas no teatro de guerra sírio valem o que valem em defesa do terrorismo, porque não se crê irem servir a legitimidade de Damasco.
Daí que, em simultâneo, os Estados Unidos se vejam obrigados a apoiar a reactivação das negociações diplomáticas de Viena sobre a Síria, a desenvolver num quadro de respeito pelas resoluções da ONU sobre a região do Médio Oriente, e não já, como pretendiam Washington e os aliados da União Europeia, sobre “a partida imediata de Assad”.
A região do Médio Oriente continua em convulsão, mas existem dados novos a induzir que as mudanças não se processam em sentido único, e a proporcionar oportunidades alargadas às vias diplomáticas. A relação de forças internacional altera-se.

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