Opinião

O sacrifício de Hiroxima foi em vão

José Goulão |

“Trinity”, “Little Boy”, “Fat Man”… Ou “Trindade”, “Rapazinho”, “Homem Gordo”, três designações inócuas e inocentes para um dos maiores crimes contra a humanidade, por certo o maior crime de guerra que continua impune.

Três nomes inócuos e inocentes para três bombas nucleares paridas pelo chamado “Projecto Manhattan”, em segredo máximo e através de financiamentos clandestinos inspirados em práticas mafiosas de lavagem de dinheiro. Dois mil milhões de dólares foi quanto custou a produção dos três primeiros protótipos de bombas atómicas construídas pelos Estados Unidos, duas das quais foram testadas, por exigência do Presidente Truman, nas cidades japonesas de Hiroxima e Nakasaki, tragédias sobre as quais se completam agora 70 anos de luto universal.
A Alemanha nazi rendera-se, a Itália fascista também, o Japão nacionalista estava de rastos, negociando nos bastidores, com as potências vencedoras, a sua rendição. De acordo com versões coincidentes de numerosos historiadores, Tóquio pretendia somente salvaguardar a figura do imperador, circunstância com significado interno mas sem qualquer repercussão externa ou de índole militar.
O uso da bomba de urânio sobre Hiroxima, em 6 de Agosto de 1945, e da bomba de plutónio sobre Nakasaki, em 9 de Agosto, não era necessário para ganhar uma guerra cujo desfecho estava decidido. O sacrifício de centenas de milhares de japoneses inocentes foi o investimento feito pelo complexo militar-industrial norte-americano para mostrar quem ganhara efectivamente a Segunda Guerra Mundial e, sobretudo, quem iria ganhar as guerras seguintes, isto é, quem iria reinar imperialmente sobre o mundo. Essas eram então as circunstâncias.
Por razões estratégicas que se relacionam com os grandes avanços das investigações científicas nos processos da cisão nuclear e das reacções em cadeia, a corrida à bomba atómica mobilizou a Alemanha e os aliados nos últimos anos da guerra. Os Estados Unidos, que entraram tardiamente na guerra, estavam na frente graças aos trabalhos de cientistas de várias nacionalidades, entre os quais se destacou Julius Oppenheimer, de ascendência alemã, a quem Roosevelt entregou a chefia do “Projecto Manhattan”, nome de código para a produção da bomba atómica em instalações secretas construídas em Los Alamos, no Novo México. Los Alamos não existia, a não ser como uma posta-restante: “1663 Santa Fe”.
Do projecto resultaram três protótipos. Um deles, “Trinity”, foi testado em segredo no deserto, perto de Alamogordo, em 16 de Julho de 1945. A guerra na Europa terminara havia dois meses e caminhava para o fim na Ásia. Pode afirmar-se, sem erro, que apesar dos avanços científicos a bomba atómica chegou atrasada à Guerra Mundial. Truman sucedera a Roosevelt por morte deste e a sua administração desdobrou-se em pretextos para testar os dois outros protótipos ainda em cenário real, como sinal de superioridade global. Oppenheimer calculara que o lançamento de uma bomba atómica sobre uma cidade poderia provocar cerca de 20 mil mortos.
Vaticínios conservadores, dir-se-ia hoje. Em Hiroxima, sob o impacto de “Little Boy”, morreram mais de cem mil pessoas nos dois primeiros dias e ainda há seres humanos que morrem hoje devido ao efeito continuado das radiações, incluindo pessoas que herdaram de pais e avós as degenerações genéticas por elas provocadas. Em Nakasaki, sob o impacto de “Fat Man”, perderam a vida entre 60 mil a 80 mil pessoas nos primeiros dias. A primeira foi lançada em 6 de Agosto: deveria ter sido em 1 de Agosto, mas um tufão alterou os planos. A segunda abateu-se sobre Nagasaki, mas deveria ter sido sobre Kokura: tal não aconteceu devido ao facto de esta cidade se encontrar sob céu nublado. Pelo carácter fortuito das decisões percebe-se que não foram tomadas em função de necessidades objectivas de guerra, mas sim pelo desejo arrogante de intimidar tanto inimigos como aliados.
Os segredos de Los Alamos não tardaram a tornar-se de Polichinelo. Hoje há 17 mil ogivas nucleares no mundo, segundo organizações de físicos norte-americanos, desconhecendo-se se esse número inclui ou não as de países, como Israel, que escondem as suas capacidades. Todas elas multiplicam exponencialmente o potencial de morte das três estreantes. O sacrifício das populações de Hiroxima e Nagasaki foi em vão. Um conflito nuclear na actualidade não deixará ninguém em condições de registar quem o ganhou, porque não terá vencedores.

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