Opinião

“Redimidos” alemães na lógica americana das migrações

Luis Alberto Ferreira |*

A imigração, a nível do planeta, é uma longa escaramuça de determinismos claros ou obscuros. No mundo ocidental a “tradição” interioriza, sobre os imigrantes, uma piedosa ideia-mestra de suporte: “a debandada populacional é sina dos países atrasados”.

Simplicismo enorme e enganoso. A longa odisseia das migrações conta-nos fados muito diversos. Encontramos, ao longo da História, protagonistas deste fenómeno oriundos de países ricos e que, hoje, abundam no escárnio e na prepotência sobre quem imigra para trabalhar. O caso da Alemanha – da Alemanha face aos Estados Unidos – em matéria de imigrantes, será de certeza dos mais desconhecidos no mundo. Estudei-o, com detalhe, no México, de onde procedem os imigrantes agora desfeiteados, como nunca, por um candidato à presidência dos Estados Unidos da América do Norte. A saga dos imigrantes alemães que ajudaram a edificar a actual potência norte-americana contém episódios comparáveis aos da escravatura negra nas Américas. Estivessem hoje vivos – Abraham Lincoln, John Adams, Thomas Jefferson, Franklim Roosevelt, John Kennedy, Otto von Bismarck, Willy Brandt, Helmut Schmidt … – e teríamos, hoje, um interessante e formidável debate sobre a História das Escravidões.O respectivo prólogo talvez devesse incluir um certo detalhe estrutural: John Adams, segundo presidente (1797-1801) dos Estados Unidos, quando era apenas membro do corpo diplomático obteve dos banqueiros de Amesterdão, às portas da Alemanha, pois, vultosos empréstimos governamentais… Outro indício daquilo que os Estados Unidos ficaram a dever, como nação, ao universo saxónico, no tempo em que o processo de formação do seu território soberano não olhou a meios para alcançar os fins: roubo ostensivo de extensas regiões pertencentes ao México e extermínio faseado dos índios e sua cultura.O que começa mal dispara futuros movediços.
A grande narrativa da movimentação, outrora, de pessoas da Europa e da África deslocadas para os Estados Unidos, não devassou, ainda, aparências, deturpações e ocultações. A Constituição norte-americana de 1787 tornou evidente um “reajustamento das instituições coloniais às novas condições e necessidades dos novos estados” da nação. Escassa ou nula contribuição, apurou-se, para os imigrantes europeus chegados em massa nos anos anteriores à proclamação da independência norte-americana (1776). A avalancha migratória repetir-se-ia em anos como os de 1830 e 1840, protagonizada em particular por escandinavos, irlandeses e alemães. Numa altura em que a senhora Angela Merkel, seu poder e seus indiscutíveis talentos continuam a ser epicentro das políticas europeia e mundial, pode assombrar multidões a revelação deste inegável facto histórico: muitos alemães, no auge inicial da idealização do “sonho americano”, foram nos Estados Unidos verdadeira carne para canhão. Ninguém poderá objectivar que tipo de “vantagens” sociais terão auferido esses imigrantes quando, em 1795, o Congresso norte-americano aprovou uma “Reforma à Lei da Imigração” em vigor desde 1790. A novidade foi aumentar para cinco anos o período de residência exigido a quem solicitasse a naturalização. Uma medida “defensiva”, reflexo da intenção norte-americana de “controlar” os refugiados das guerras napoleónicas. Os Estados Unidos, diga-se de passagem, nunca simpatizaram com a Revolução Francesa. O que faz prever que os povos europeus afectados pela “preexcelência”de Napoleão Bonaparte –e que recorreram à imigração para a “América do Norte”– hajam sido ovelhas negras no contexto da função distributiva que se reclama de um país livre.  Percebamos, então – recusando ser bonifrates à mercê das propagandas parcialistas – que as chaves autorais da democracia estão, por direito próprio, nas caixas-fortes da História da Grécia.
 Os alemães só têm que recuar no tempo, reabrir os cacifos documentais da História Universal e ajudar a clarificar as cruentas verdades da imigração nos dois continentes – o europeu e o norte-americano. Em vez de interpretações, factos. Em 1756, moeda verbal corrente era a classificação de “redimidos” atribuída aos alemães que o “tráfico de carne humana” (Ângela MoyanoPahissa/JesúsVelasco) arrastava para os Estados Unidos (em fase de construção). Custa muito chamar imigrantes a quem se deslocava da Alemanha, a partir do Reno, em direcção a Filadélfia, então a mais populosa cidade da Pensilvânia. Antes de pisar terra firme na União Americana, os indigentes alemães escalavam Roterdão, na Holanda, onde os aguardaria o transporte marítimo. Em Roterdão, eram escolhidos a dedo pelos contratantes: tal como os escravos negros africanos, os míseros germânicos valiam o que valeria a sua aparência física (“braços feitos ao trabalho”). A viagem até Filadélfia custava 200 florins. Esta soma era descontada no “salário”, também mísero, do imigrante alemão, obrigado a laborar durante anos até saldar a “dívida”. Os casais eram uma “boa garantia” para os patrões norte-americanos da época: se o marido adoecesse, a mulher seria chamada a trabalhar no seu lugar.
As crianças alemãs a cargo dos pais não escapavam tão pouco a este ominoso regime: trabalhavam, até aos 21 anos, sem salário, pela mesma razão: o pagamento da viagem Roterdão-Filadélfia.
Tudo isto, pedaços de sangue humano estruturantes do dólar e do marco alemão. Do dólar, que até ao fim da Primeira Guerra Mundial era divisa que não impressionava ninguém. Do marco alemão, que tardou na aparição : longa viagem, como a daqueles imigrantes de 1756, entre a época das mercadorias funcionando como moeda e a da implantação do Banco dos Estados Alemães, antecessor do todo-poderoso Deutsche  Bundesbank.Enfim, uma última extrapolação: Michael Harrington, ao analisar a “opulência” do viver norte-americano em 1950-1960, lembrou os pedações de “terra invisível”: a pobreza. Harrington seria, em Hollywood, o guionista ideal para um filme: “Os Redimidos”. Os alemães de 1756.

(*) Luís Alberto Ferreira é o mais antigo jornalista angolano no activo

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