Opinião

Um novo Carlucci em Portugal

José Goulão |

O senhor Sherman está “preocupado”. Ele que abandonou o seu bem-sucedido escritório de advogados em Boston.

Que descurou as reuniões do Conselho do Memorial do Holocausto para fazer um tranquilo período de repouso sabático na Embaixada dos Estados Unidos da América em Portugal, onde seria suposto nada ter que o incomodasse, agora encontrou razões para se inquietar.
É verdade que antes de se instalar passou uns olhares despreocupados pelas aventuras do chefe da CIA, Frank Carlucci, quando destacado como embaixador neste “jardim à beira mar plantado”.
Mas como, desde então, tudo entrou nos eixos e caducaram as intensas mas fugazes razões que sobressaltaram o império, Portugal voltou a ser o redil manso e obediente sempre que as simpáticas ovelhinhas ouvem ordens em inglês ou qualquer coisa parecida.
Contudo, de repente e quando nada o fazia prever, o senhor Sherman confessa-se preocupado, e di-lo bem alto, em rádios e jornais com muito boas referências e preferências na sua terra, para que tais inquietações cheguem ao homem do palácio de Belém antes de tomar uma decisão sobre o próximo governo. Ele – o homem do palácio de Belém – que teve a ousadia de receber uma torrente de sábios doutores, engenheiros e economistas pensando as mesmas coisas e não encontrou hora para acolher também o senhor Sherman.
O senhor Sherman, porém, nem precisa de ir a Belém para se fazer ouvir. Está “preocupado” porque o PS, entidade que até agora nunca dera motivos para preocupações a Sherman e antecessores, foi capaz de fazer acordos de incidência governamental com “ferozes inimigos da OTAN”, coisa que é ainda pior que ser terrorista porque estes, como ficou bem explicado nos Balcãs, na Líbia, e não deixa dúvidas na Síria, são pragmáticos quanto baste para fazer serviços, por sinal bem sujos e sangrentos, em aliança com os senhores da Aliança Atlântica. Uma mão lava a outra.
O senhor Sherman ressalva, não haja mal-entendidos, que “respeita as escolhas políticas dos portugueses”, porque são assim os verdadeiros democratas como ele que, sendo conselheiro do Museu do Holocausto é, ao mesmo tempo, cúmplice ideológico de atrocidades cometidas em Gaza, da tortura e assassínio de garotos e adolescentes que são moeda corrente nas prisões e hospitais de Israel.
O senhor embaixador Sherman adverte de Sete Rios, em todas as direcções, que o comportamento do PS “levanta a questão sobre se o compromisso de Portugal, como membro fundador (da OTAN), é firme como sempre foi”. Porque, como dizia seu pai, “diz-me quem são os teus amigos, dir-te-ei quem és” e os socialistas “fizeram uma aliança amigável com dois partidos anti-OTAN”.
Sabemos, como atrás ficou escrito, que o senhor Sherman “respeita as escolhas políticas dos portugueses”. Pelo menos, subentende-se, enquanto forem as escolhas que a OTAN pretende.
E se por acaso, um dia, as “escolhas legítimas dos portugueses” não agradarem à OTAN o que acontece? O senhor Sherman chama a OTAN para devolver as “escolhas” à devida ordem? Quem assim nos alerta com as suas “preocupações”, nosso amigo é?
O senhor Sherman deve saber – ou deverá ter quem o informe – que apesar de Portugal ser membro fundador da OTAN os portugueses nunca foram consultados sobre isso, nunca puderam escolher.
Até porque quando Portugal participou na fundação da OTAN era governado por um tal Oliveira Salazar que se sucedeu a si mesmo, mandato após mandato, sem que os portugueses alguma vez o tivessem escolhido, tal como acontece com fazer ou não parte da OTAN. A relação de Portugal com a OTAN, tal como a submissão dos portugueses a Salazar, nunca teve a ver com democracia. Com essa situação, porém, não manifesta Sherman qualquer incómodo.
Durante anos a fio, durante as últimas décadas não se ouviu um pio da Embaixada dos Estados Unidos em Lisboa. A Oeste nada de novo, para o império tudo corria sobre rodas. De repente, eis que parece surgir uma ovelha tresmalhada e logo ficámos a conhecer quem ocupa o lugar que há 40 anos foi de Carlucci, chefe da CIA.
O mastim do império não dorme, nunca dorme. Mas tal como o embaixador dos Estados Unidos, também os portugueses sabem citar provérbios universais, por exemplo o que diz que os cães ladram e a caravana passa. Assim queiram os portugueses honrar as suas escolhas legítimas, incomodem ou não o senhor Sherman e seus amos.

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